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Entrevista com D. Irmina
Nena Gama : Onde a senhora nasceu?
Irmina: Fui a primeira que nasceu no "Fundão", benzi o "Fundão".
Nena Gama : Fale um pouco sobre esse lugar...
Irmina: Era uma fazenda. O papai casou e foi morar na fazenda do pai dele. Depois vovô casou pela segunda vez, porque a vovó faleceu, aí papai achou que ficava chato morar junto e foi morar no Bom Jardim, que era uma parte dele também. Como lá era pequeno, ele comprou o Fundão. E o Fundão também era pequenininho, mas ele foi comprando um pedacinho de um, um pedacinho de outro, e formou a fazenda. E ali eu nasci.
Nena Gama : E onde ficava exatamente a fazenda?
Irmina: Ficava atrás da fazenda a vapor (fazenda da Boa Vista).
Nena Gama: Ah, atrás da Boa Vista?
Irmina: É, num morro.
Nena Gama : E por mar, como se chega?
Irmina: Vai pela Ponta Grossa, entra ali no Castelo, não é Lulu? (referindo-se ao marido Luiz Carlos). Entra depois do Jurumirim (hoje, propriedade de Amir Klink). Entra na Ponta Grossa, dá a volta, vai quase perto do Paraty Mirim e entra no "saco".
Nena Gama : Ah é? Entra no Paraty Mirim?
Irmina: Perto do saco do Paraty Mirim. Ali tem uma ponta que vai pro Paraty Mirim e outra que vai para o Fundão.
Nena Gama: E como era a fazenda do Fundão?
Irmina: Ah, era muito bonita...Você nem queira imaginar...como era bonita
Nena Gama : Eu imagino... posso imaginar, a minha mãe conta...
Irmina: (rindo, muito alegre) E a quantidade de moça que tinha?!
Nena Gama : Eram quantas irmãs?
Irmina: Éramos em treze, dez mulheres e três homens.
Nena Gama : Treze filhos tiveram os seus pais?
Irmina: É, e dez mulheres.
Nena Gama : E os nomes de cada um?
Irmina: Ó, o primeiro é o Secundino, depois Sílvia, eu sou a terceira, Maria Irmina, depois Pedrina, Amália, Doninha, Célia, Pedro, Anazita, Irene, Nancy, Edson e Maria Tereza.
Nena Gama : E em que ano a senhora nasceu?
Irmina: Eu sou de 1920.
Nena Gama : E como era a vida de vocês, a senhora viveu na fazenda até que idade? Sei que vocês tinham também um sobrado no centro histórico, como era?
Irmina: Nós tínhamos o sobrado, o papai tinha o Bom Jardim e tinha parte da fazenda a vapor. A Boa Vista, a maior parte era do papai.
Nena Gama: E a senhora estudou aqui na cidade ou naquela época tinha professor na fazenda?
Irmina: Naquela época não tinha escola na fazenda. Quando a escola estadual foi pra lá eu já era casada, se não me engano. Nós estudávamos aqui, vínhamos pro sobrado do papai, e o papai tinha uma comadre que cuidava da gente e a gente estudava. Mas eu só estudei até a segunda série primária minha filha, por que aí veio a Revolução de 32. Como eu era a terceira filha e estava no lugar de primeira, por que o Secundino era homem e a Sílvia estudava no Rio, fazia o ginásio no Rio, eu assumi a fazenda, com onze anos e pouco, pra doze anos.
Nena Gama : Como assumiu? O que fazia?
Irmina: Eu cozinhava pra sessenta, setenta camaradas. Socava arroz, socava milho, socava café, torrava. Com a idade de doze anos eu enfrentei a fazenda porque a mamãe estava com neném pequenininho e quando a Revolução chegou, foi dia cinco, a mamãe ganhou o Antônio Edson dia cinco de julho. Dia sete chegou na fazenda o comandante Aldo com soldados, polícia, essa coisa toda, pra requisitar a tropa do papai e nós nem sabíamos que havia revolução aqui dentro da cidade. Estávamos lá no Fundão. Aí veio requisitar a tropa, tudo... Além de levar a tropa ainda levou camarada que trabalhava, que tomava conta de animais.
Nena Gama : Tropa de animais?
Irmina: É, de animal. Trouxeram pra Cunha, essa coisa toda, e aí eu tive que ficar cozinhando. Eu era a mais velha então. E aí assumi a cozinha, assumi a fazenda.
Nena Gama : E o que era produzido lá?
Irmina: Cana, banana, feijão, arroz, tudo. Papai plantava tudo. Tinha porcos, muitos porcos, muita criação, galinha, gado.
Nena Gama : Até gado? Então vocês tinham leite, queijos?
Irmina: Tinha à vontade! Tinha até boi zebu naquele tempo. Tudo à vontade. Frutas, tínhamos todas lá em casa, até uva, tudo, tudo, tudo. Carambola, abacaxi, jaca, melancia, laranja de todas qualidades que existiam por aqui, mexerica até laranja Bahia, laranja branca – que acabou – laranja da terra, que hoje não tem mais laranja branca né? Laranja branca, bonita, gostosa. China, laranja China, a verdadeira, cadê? Isso acabou, Nena! Laranja China hoje é laranja pêra. Então nós tínhamos tudo, tudo da roça. Ingá, tínhamos tudo, tudo, tudo que se possa imaginar, Cambucá, jambo, jambão, tínhamos tudo, grumixama, amora, morango, aquele miudinho do mato, a gente andava pelo meio do mato apanhando esse moranguinho que diziam que era comida de cobra.
Nena Gama : Eu sei qual é.
Irmina: A gente saía com uma peneira, uma vasilha grande e ia pelos caminhos da cachoeira apanhando aquela quantidade. Lavava, botava no escorredor e depois do almoço comia com açúcar, que naquele tempo não tinha creme chantily, não tinha nada disso. Não tinha sorvete (rindo).
Nena Gama : Como era o engenho de pinga?
Irmina: Nena, no tempo do Getúlio Vargas, houve um concurso de bebidas e o papai ganhou como a melhor bebida do mundo (frisa as palavras). A melhor cachaça do mundo.
Nena Gama : Como é que chamava mesmo, é a famosa "Branquinha do Peróca"?
Irmina: É. A Branquinha do Peróca, a Azulada do Peróca, tinha Anis, tinha Laranjinha, tudo isso. A Laranjinha sabe como é que o papai fazia? Ele mandava limpar debaixo das laranjeiras, de laranja crava...
Nena Gama : Só de laranja crava?
Irmina: Só de laranja crava. Forrava e apanhava aquelas florzinhas, branquinhas, com aquilo ele fazia a bebida. A cachaça era cheirosa, era um perfume.
Nena Gama : Qual delas, a Branca, a Azulada, qual delas?
Irmina: Todas. Então Getúlio escreveu, mandou pelo Ministério da Fazenda, veio uma carta pro papai buscar o diploma que ele tinha ganhado uma medalha de ouro. Mas o papai não gostava do Getúlio e dizia que enquanto o Getúlio fosse vivo ele não ia buscar (rindo).
Nena Gama : E não foi buscar?
Irmina: Não foi buscar. E nós tínhamos o certificado, com um emblema bonito, com emblema do Brasil, aquela coisa toda. Aquela carta bonita dizendo pra ele buscar e tudo ficou na fazenda. Estava lá registrado. Papai guardava dentro de uma gaveta, um gaveta grande, daquelas cômodas antigas que tinha segredo embaixo.
Nena Gama : E como era o seu pai, era um homem rigoroso, como era a educação de vocês?
Irmina: O papai era rigoroso sim, mas era amoroso demais. Era muito amoroso. A mamãe era muito meiga, mas não sabia fazer carinho, então ela dizia assim: "Eu gosto de vocês, eu gosto dos meus filhos, mas só sei acarinhar quando estou amamentando". A mamãe não sabia fazer carinho. Era assim muito mansa, muito calma...Agora papai não, papai era cem por cento. Papai, a gente montava a cavalo nas costas dele, ele carregava duas três num tempo só. Na hora de dormir, toda noite, nós tínhamos uma rede na sala, ele abria a rede e sentava com a viola.
Nena Gama : Ele tocava?
Irmina: Tocava. Então ele botava um filho pra cá e outro pra lá (mostra como, sobre as pernas). Aquele que dormia, ele dizia: "Domingas, pega esses dois, bota lá, e me dá mais dois." E ele gostava. Papai era muito bom.
Nena Gama : E como era a casa da fazenda, era grande?
Irmina: A casa era baixa. Tínhamos três quartos, uma sala grande, tinha uma copa, que era sala de jantar, grande, uma cozinha, despensa boa, um engenho imenso, um alambique imenso, muito grande. Tinha um terreiro de cimento pra cima, tinha os galinheiros...
Nena Gama : E esse lugar de cimento era pra secar o que, feijão?
Irmina: Feijão, café, arroz, botar essas coisas.
Nena Gama : Tudo o que vocês colhiam lá mesmo?
Irmina: Mas era um terreiro imenso e todo cercado de tela (o marido dela diz que era pro gado não invadir), cercado por moirões e tinha um portão grande. Mas o Fundão foi muito bonito, depois tinha muito empregado, muito camarada. Uma coisa bonita.
Nena Gama : Escuta D. Irmina, e a senhora tem alguma foto dessa casa?
Irmina: Tinha. Vou pegar pra te mostrar. (Interrompo a gravação até o retorno dela)
Esse galinheiro (aponta na foto), era limpo todo dia, a areia era mudada todos os dias, era varrido e botávamos areia nova. Todo dia, toda tarde, 4 horas da tarde mudava a areia do galinheiro. Você podia passar, até comer dentro do galinheiro... (aí começa rir ao se lembrar de uma estória envolvendo uma de suas irmãs):
A Amália era muito valente, dos irmãos todos, a Amália foi a mais implicante. Então quando papai vinha na cidade com mamãe, ele chamava o vovô pra tomar conta da gente e não deixar a gente largada. A Amália era impossível, ela batia nos menores e aí eles me chamavam: "Irmina, olha a Amália bateu na Célia, a Amália bateu na Doninha..." Um dia eu disse assim: "Amália, hoje você vai ficar presa no galinheiro até a hora da mamãe chegar". E ela comeu dentro do galinheiro, no poleiro. (rindo muito) Por que eu dizia: "Se você sair vai apanhar". Ela ficou a tarde toda no poleiro das galinhas, sentada. E ela dizia: "Que bem me importa, ta limpo aqui dentro." Quando papai vinha lá em cima com a mamãe a cavalo, a gente via de longe, aí dizia assim:" Olha, o seu Peróca já vem com a D. Domingas. E a Amália lá no galinheiro". Com medo de apanhar (rindo). Era engraçado. Você sabe, esse negócio de muito irmão é engraçado, brigava por bobeira.
Nena Gama : E quais eram as brincadeiras?
Irmina: Em frente aqui do Fundão (mostra na foto) tem o Funil, um morro que tem aqui, não sei se vai dar pra ver, é isso aqui ó, é o Funil, daqui passa pra Itatinga sabe, e a gente brincava aqui nesse terreiro de cimento aqui, toda noite, de roda. Mas cantávamos, alto mesmo, até meia noite. Papai ficava na janela com o cigarro acesso, quando ele batia palmas e gritava: "Vão embora dormir!". Então a gente ia pra bica, lavava os pés, quem queria tomar banho tomava, quem não queria só lavava os pés porque já tinha tomado banho de tarde e íamos dormir. Mas o pessoal no dia seguinte vinha trazer peixe e dizia assim: "Pôxa, mas vocês cantaram essa noite!" A gente brincava de seu ratinho, de abóbora...
Nena Gama : E como era essa brincadeira de abóbora?
Irmina: Senta uma porção, aí a gente vai ver qual a abóbora que está madura, e bate na cabeça. E aquela: "Bom dia sinhá bela condessa" (Cantando). "Bom dia sinhá bela condessa, vindo de França donde nasceu, o seu rei mandou pedir, uma dessas suas filhas. Não empresto minhas filhas, nem por prata nem por ouro, nem pelo sangue de alazão". Aí a outra voltava: "Volta, volta cavalheiro, volta, volta, ê gibeiro, entra dentro desse castelo e escolhei a qual quiser". Aí ele bate na cabeça e diz:(cantando) "Esta levo, esta não levo, esta levo por melhor, bebe vinho da galheta, come queijo, requeijão, vem de cá meu coração!" Aí pega a menina né? Aí senta a menina. (E continua a canção). "Assentai aí, que do céu há de cair uma agulha e um dedal. Agulha será de prata, o dedal será de ouro, palmatória de marfim, para mestre castigá-la". Então a gente brincava assim. Uma turma de cá outra de lá. Mais muito bonito. A gente brincava de roda, Seu ratinho, O Seu ratinho você sabe, né?
Nena Gama : Eu não sei não. Como é?
Irmina: Ah, o Seu Ratinho você faz uma roda grande, então fica um pro lado de dentro e outro do lado de fora aí a gente diz assim: Primeiro bate palma e perguntam: "Quem é?" E responde: "Sou eu. E o que você quer? O Seu ratinho já chegou?" . E responde: "Não!". E perguntam: "Que horas ele chega?". Aí diz: "Uma hora, Que horas são? Duas horas. Que horas são? Três horas", até chegar a meia noite. Quando chegar meia noite: "Seu ratinho já chegou? Já. Então dá licença d’eu comer ele". Então entra uma por dentro, outra sai, pra comer o Seu Ratinho. (enquanto fala, ri muito). Isso aí a gente brincava aqui na cidade e vinha essa rapaziada, molecada, que nós éramos...tínhamos sete anos, oito anos, por aí né? E as molecadas, filhos do Seu Jango (Pádua). Essa turma toda. Naturalmente ele (apontando para o marido) estava no meio, que eu nem sabia.
Nena Gama : Nem imaginava que um dia fosse casar com ele não é?
Irmina: E eles iam espiar, ficava tudo atrás da cadeia, que o nosso sobrado era ali (onde hoje é a Pousada do Cais), você sabe onde é?
Nena Gama : Sei, é ali ao lado do Fórum. E na Fazenda vocês recebiam visitas do pessoal da cidade, como era?
Irmina: Na fazenda? Lá em casa era padre, era promotor, era juiz, era delegado, prefeito...
Nena Gama : Ia a rapaziada, é o que está dizendo o Seu Lulu (esposo de D. Irmina) Ele era um que ia pra lá, não é?
Irmina: Isso mesmo. Como papai era muito popular, muito conhecido, todo ano vinha excursão de professores com estudantes. Então vinha estudante, vinha professor, vinha promotor, vinha patrício na lancha da carreira e ficava aqui em casa, aqui (mostra a foto da antiga fazenda). A lancha entrava aqui e encostava aqui ó. Eles fretavam, assim, por exemplo, ficavam doze, quatorze dias lá no Fundão. Então eles fundeavam ali, e ficavam ali. Nós sentávamos na janela, sabe...
Nena Gama : A moçada, toda lá!
Irmina: A rapaziada, estudante de tudo, né? A turma de estudante... a gente nem sabia o que era, sabia que era estudante. Era o Dr. Pontual que era muito amigo do papai. Então tinha ano que vinha, por exemplo, advogado, tinha vezes que ele trazia só professores, trazia médicos, estudantes de medicina, aquela coisa toda. E eles então vinham e diziam: "Domingas, cozinha esse marisco pra mim, cozinha isso aqui pra mim..." E a mamãe fazia muito doce, então iam comer doce. E a gente dizia assim, quase na hora de servir o doce: "Tá quase na hora de servir o doce! Então vamos servir". E depois da hora do almoço, eles iam lá pra casa e a mamãe dizia: "Acabando o almoço pode vim pra’qui que tem sobremesa". Mamãe fazia muita goiabada, sempre doce de tudo. Era doce de carambola, era bananada, era goiabada, era banana da terra, laranja da terra... Mamãe fazia tudo. Pé de moleque, cocada puxa, essas coisas, né, que eles nem sabiam o que era, achavam tanta graça, comiam, adoravam. Comiam tudo e gostavam. O Dr. Pontual: "Olha D. Domingas, eu trouxe a turma pra comer doce". Aí um queria era puxa-puxa, pé de moleque, tudo isso. E a mamãe comprava pêssego de Cunha, comprava aquela quantidade, fazia aquela calda bem bonita e eles adoravam. Então a gente ia servir, e quem não queria servir, né, era só rapazes!
Nena Gama : D. Irmina, e além de todos esses produtos, de animais criados ali, pato, gado, galinha, tudo isso que vocês tinham, desde a farinha ,que lá mesmo faziam, como era uma fazenda na beira do mar, vocês ainda tinham peixe, camarão, essas coisas?
Irmina: Tudo. Ó, camarão, o tio Joaquim tinha puçá, então a gente queria fazer empada de camarão, pro domingo, pros namorados, empada pros namorados. Eu, a Sílvia, as mais velhas, né? A gente pegava a canoa e nós mesmas pegávamos fresquinhos, os camarões pulando. Nós mesmas apanhávamos camarão com puçá. Jogava e apanhava.
Nena Gama : Beleza! E peixe... até marisco também tinha por lá?
Irmina: Tinha, tinha marisco, sururu, ostra, tinha tudo né? Tínhamos tudo, tudo.
Nena Gama : Que fartura hein?
Irmina: E papai tinha um bananal imenso. Cortava trezentas dúzias de cacho de mês em mês.
Nena Gama : Que coisa! Mas então vocês tinham muitos empregados?!
Irmina: Tinha bastante, mais de quarenta famílias vivendo lá. E depois, quando papai fazia assim, como é que se diz... ajutório que se chama, né, Lulu? Aí vinha o pessoal daqui, da Itatinga, do Cabral, da Independência, do Bom Jardim, do Engenho D’água, da Serraria, da Boa Vista, ia todo mundo. Juntavam trezentos, quatrocentos homens. Isso quando papai queria, assim, fazer uma derrubada, tirar uns paus pra canoa, essa coisa toda, ou então roçar, queimar, pra fazer plantações, aí vinha.
Nena Gama : E até que ano vocês viveram lá?
Irmina: Bem eu me casei em... nós (dirigindo-se ao marido) casamos em 42 né Lulu? Mas depois a mamãe ainda ficou bastante tempo. O papai ficou doente em 64 né? 62, 64, por aí.
Nena Gama : E aí eles vieram pra cidade?
Irmina: É, vieram pra cidade.
Nena Gama : E a fazenda foi ficando...
Irmina: É, foi ficando. Aí a Célia assumiu um pouco, a Doninha assumiu, a Anazita assumiu, depois que foi pra mão do Pedro..O Pedro não tinha vocação pra fazenda. É uma pena. Nem ele, nem o Secundino. O Secundino era muito trabalhador mas ele não tinha vocação. Tem que saber administrar. Olha, a Doninha, a Célia e a Anazita elas saíam em barcos de banana e iam levando cachaça pra levar pra Mangaratiba, pra Angra, Ibicuí, pra Campo Grande...
Nena Gama: Era muito comum as caçadas naquela época?
Lulu: O meu sogro, o Peróca, fazia questão que eu fosse lá caçar com ele...
Irmina: Caçar. O Seu Leontino gostava muito de caçar, o pai dele e o papai. Então eles iam e levavam os filhos.
Nena Gama : Parece que o meu avô, o Terra Boa, também gostava muito de caçar.
Lulu: Pra matar veado, ele era caçador de veado.
Nena Gama : O meu avô, não é? E tinha muito veado por aqui?
Lulu: Muita coisa, matavam até no campo de aviação.
Irmina: Capivara tinha até na cabeça da ponte. A gente saía às vezes da escola pra ver a capivara na cabeça da ponte. Aquelas capivaras imensas.
Nena Gama : E lá na fazenda tinha muito bicho, a senhora lembra?
Irmina: Lá em casa? Ah, a paca a gente via correr lá pelo meio de casa, assim ó.
Nena Gama : E pássaros?
Irmina: Tinha de tudo. Papai não prendia, não deixava ninguém ter pássaro preso em gaiola. Ele dizia assim: "Tudo isso aí é de vocês, mas deixa o animal solto". Papai nunca deixou. Lá em casa nunca teve uma gaiola e a mamãe dizia: "Tão bonito. Sai e vê aquela quantidade de canarinho, amarelinho, amarelinho, em cima da pedra." Papai dizia: "Tudo isso é de vocês. Pra que prender?" Faziam ninhos, tudo à vontade, parece até que os pássaros eram amigos da gente!
Nena Gama : O Seu Lulu também vem de uma família tradicional daqui não é?
Irmina: É, família bem antiga.
Nena Gama : E como é que vocês se conheceram, como era o namoro naquela época?
Irmina: O namoro naquela época, não se percebia que era namoro. Por que, por exemplo, eu namorava o Lulu, mas eu saía com a Cléia, Mariazinha, saía com a filha da Filoquinha né, Lulu? A Maria, Alaíde, a Maria Rameck, Josefina, a Nina da tia Vida...
Nena Gama : E o que vocês faziam à noite, qual era o programa?
Irmina: Aquela turma de moças uma com a outra, tudo de braço uma com a outra, abraçada assim, dando volta dentro da praça, naquele tempo a praça era fechada, você sabe que era cercada né? É, era cercada, tinha um portão por aqui e outro do outro lado, tinha tela e era fechada. Então nós saíamos de braço dado, e quando um deles queria se "engraçar", como se dizia, eles diziam: "Dá um lugarzinho pra mim?" E eles encostavam perto da gente. E quando vinha um pai ou um tio, ninguém sabia quem era dona do namorado. Porque estavam todas juntas, em penca. Engraçado né, Nena?
Lulu: Naquele tempo pra dar um beijo era difícil.
Irmina: Só pra pedir levava muitos anos não é, Lulu?
Nena Gama : Demorou, Seu Lulu, pra dar um beijo na Irmina?
Irmina: Ih, ele cansava de pedir, mas não tinha nada não. Olha só a cara dele (rindo).
Lulu: Eu namorava ela e tinha outro que namorava... Parece a Cléia do...
Irmina: Era o José Siasanto, que namorava a Cléia.
Lulu: Então nós dois se encontrava e eu pensava: "Será que vou conseguir um beijo hoje? Até agora não consegui nada". Aí quando foi um dia eu disse "Vou cantar pra ver se ganho um beijo".
Irmina: Era tudo na pureza, a gente não tinha maldade, de verdade, não tinha mesmo.
Nena Gama : E quanto tempo vocês ficaram namorando, até casar?
Irmina: Uns quatro anos e pouco.
Lulu: E o juiz foi puxa-saco. Sabia que eu namorava ela, né, e se dava demais com o meu pai e com o pai dela. Como era mesmo o nome dele?
Irmina: Era Maranhão, Luiz Alberto Maranhão, Dr. Maranhão.
Nena Gama : Mas ele foi lá para pedir a sua mão pro Lulu?
Irmina: Não, foi assim, a Sílvia casou e ele foi ao casamento da Sílvia. A Sílvia casou no Paraty- Mirim. Depois que vieram do casamento, o almoço foi lá em casa. Eu e o Lulu íamos ficar noivos e a Sílvia se casou parece que dia 22 ou 23 e meu aniversário era dia 24 de novembro e nós íamos ficar noivos dia 24. O Dr. Alberto Maranhão descobriu e chamou o Lulu e disse: "Lulu, por que não pede ela em casamento hoje, faz uma festa só, está todo mundo aqui..." Ele dizia: "Não quero porque meu pai não sabe ainda" E ele dizia: "Ora que bobagem, que bobagem, agora seu pai, você é uma pessoa adulta, já com vinte e tantos anos". Por que o Lulu tinha 22 e eu tinha 20. Aí eu sei que ele fez, tanto insistiu que o Lulu mandou que ele pedisse. Aí veio a turma toda e eu não sabia, né? Eu via todo mundo a bater palmas e não sabia o que era. O Nondas veio correndo pra me dar os parabéns e eu não sabia o que era. E perguntei: "O que é, o que é?", "Você ficou noiva, ficou noiva".
Nena Gama : Mas e o seu casamento?
Irmina: O meu casamento foi aqui na cidade. Eu tenho fotografia.
Mas voltando ao meu pai, ele não admitia que a gente viesse na cidade com vestidos usados, velhos. Tinha que andar bem arrumada. Ele dizia assim: "quem não se enfeita, por si se enjeita, moça tem que andar bem arrumada, limpinha, cheirosa". Papai não deixava a gente andar descalça, Nena, de maneira nenhuma, lá em casa. Se ele visse alguma vez... porque a gente gostava de tirar o chinelinho, tirar e ir ao engenho, aí papai dizia assim: "Ô Domingas, essas crianças não tem tamanco, não tem chinelo, eu vou à cidade pra buscar". Não gostava. Tinha que andar calçada.
Nena Gama : Então além de se alimentarem muito bem, de viver maravilhosamente bem, ainda tinha que andar bem arrumada?
Irmina: Tinha que andar bem vestida, bem arrumada. Olha, as meninas aqui da cidade quando iam lá pra casa e viam as camisolas que a gente usava, com pala, estampadinha, com renda, aquela renda valenciana, aquelas rendas boas né? E elas diziam assim: "Ai meu Deus nós não temos nada disso".
Nena Gama : E vocês com tudo aquilo...
Irmina: A nossa camisola de dormir era toda bordada, com renda, com raminho, a nossa roupa toda bordadinha, toda direito, assim...
Nena Gama : E as roupas de cama, vocês tinham também coisas de linho, bordadas, roupa de mesa?
Irmina: Muita, muita roupa de cama e mesa. As toalhas de mesa da mamãe... a mamãe fazia todas. Com aquele algodão cru a mamãe fazia bainha de laçada e toda toalha lá de casa ela fazia 24 guardanapos. Aqueles guardanapos, tudo de bainha de laçada também. E tinha monograma. Tudo com P e D, Pedro e Domingas. E toalha de banho, todo mundo tinha. Por que aqueles sacos, saco branco, sabe qual é? Então aquele era só pra enxugar os pés. O Secundino e o papai, que às vezes vinham com os pés sujos e iam à bica, lavavam e secavam com aquele saco. Mas tinha que ter toalha de banho. Aqui mesmo na cidade muita gente não usava toalha de banho, usava pano de saco. Todo mundo usava pano de saco e nós tínhamos toalha de banho que papai trazia de São Paulo.
Nena Gama: E ele viajava? De vez em quando vocês viajavam?
Irmina: Todo ano ele fazia uma viagem. Quando terminava a safra aí ele ia pra São Paulo, ia visitar os irmãos, ia a Santos, que ele tinha irmãos em Santos, São Paulo, e tinha em Assis e no Rio. Ele fazia essa volta toda e ia visitar todo mundo, Nena. Quando ele vinha, passava em São Paulo e fazia compra de louça, fazendas, roupas, tudo. E brinquedo. Era brinco de ouro pra todo mundo e a gente deixava tudo nas goiabeiras. E a mamãe dizia: "Danadas dessas crianças, nem brinco de ouro não pára na orelha delas". Bonecas, papai comprava aquelas de louça, bonitas, que naquele tempo a boneca de louça era só no rosto, o resto era pano. Ou pano ou papelão. E então nós tínhamos o alambique que estava desocupado para conserto, no porto, e aquele alambique enchia de água e de vez em quando uma das meninas ia lavar a boneca e ficava lá boiada, só a cara o resto desmanchava tudo.
Nena Gama: Aí chegava em casa era puxão de orelha?!
Irmina: A mamãe dizia assim: "Cadê a boneca?" "Ah, fulana foi lavar, escangalhou, desmanchou". A gente brincava muito. Ia pegar caranguejo no mangue, andava a cavalo em pelo, ia cortar ingá pra comer. Tinha um burro lá, um cavalo, qualquer coisa a gente cortava um pedacinho de cipó, amarrava na cara do burro, montava e ia pra fazenda. A mamãe dizia: "Vocês parecem moleques, nem parecem umas moças, parecem moleques." Era muito gostoso, muito gostoso.
Nena Gama : Bem, e eu fico aqui, maravilhada ouvindo essas histórias. Se deixar, anoitece e eu continuo aqui me divertindo com a senhora.
Irmina: A gente pintava e bordava até com os empregados. Nós saíamos depois do almoço, acabava de almoçar "Vamos a tal lugar, vamos? Vamos apanhar cambucá? Ih, lá no caminho do Seu Augusto tem um pé de cambucá. "Mas, era na costeira. E cambucá é uma árvore que quebra muito sabe, por que não enverga. Pisou, quebra. Chamam de vidrento né? E às vezes a gente estava no pé de cambucá passava a turma de empregado: "Ah, vocês estão aí é, as meninas do engenho?! Ó eu vou pra fazenda e vou contar pro seu pai" Aí a gente dizia assim: "Quer um carrinho?" Aí nós fazíamos isso: chegavam lá em casa e davam uma volta grande, aquela volta imensa, aí em frente o campo de futebol pra passar a ponte pra chegar em casa. Nós, enquanto eles faziam essa volta toda, nós caíamos no mangue, entrava dentro d’água com a água por aqui, suspendia o vestido e tibum, tibum, dentro d’água. Chegava em casa lavava os pés e ficava todo mundo na janela. Aí Seu Augusto dizia: "ó, vou chegar na fazenda, vou contar ao pai de vocês, vocês vão ver, vocês estão aí, ainda caem, se machucam, se cortam"! Agente dizia: "Quer um carrinho Seu Augusto, pra contar?" Seu Augusto: "Eu vou contar". Só que quando ele chegava na fazenda nós já estávamos na fazenda há muito tempo. Porque a gente atalhava, passava por dentro do mangue e saíamos no porto e quando ele chegava, nós já estávamos na janela há muito tempo. Ele olhava pra gente e dizia: "Vocês são impossíveis, ninguém pode com vocês!"
Nena Gama : Dona Irmina, e tinha capela ou igrejinha na fazenda?
Irmina: Não tinha, mas nós tínhamos um Bom Jesus, que foi da vovó...
Nena Gama : E com quem está? Com quem ficou?
Irmina: Está com a Amália, em São Paulo. A Amália foi a única neta afilhada, então vovó, bem antes de morrer deu pra mamãe por que era da Amália. A Amália era afilhada dela. E ficou na fazenda, então papai todo ano fazia muita festa. Bom, lá em casa tinha S. Pedro, S. João, S. Antônio, São José... Tudo papai fazia oração, ladainha.
Nena Gama : Mas tinha o que, imagens ou tinha festa?
Irmina: Tinha as imagens. E festa a gente fazia festa de S. Pedro, um festão imenso, ia todo mundo, a cidade toda, vinha gente de S. Paulo e até a Maria Luiza do Dr. Téo ia lá pra casa, aquele pessoal todo.
Nena Gama : D. Maria Luiza também foi sua amiga?
Irmina: Foi, Maria Luiza foi muito amiga da gente. A Maria Luiza gostava muito da mamãe, do papai, sabe? Então, papai foi muito amigo do Dr. Samuel Costa. E ela cresceu, saiu de Paraty, mas quando ela voltou, sabia quem eram os amigos dos pais. Então ela nunca deixou de ir lá em casa, todo ano ela ia. Depois que ela casou com o Dr. Téo, ela ia também. Ela sempre freqüentou.
Nena Gama : E como era a festa, tinha missa?
Irmina: Tinha ladainha, essa ladainha da roça que chama, e depois tinha baile, chiba. Chiba a noite toda e comida pra todo mundo.
Nena Gama : Era o pessoal daqui mesmo tocando?
Irmina: É, e tinha a banda de música também, daqui da cidade. E tinha viola, tinha cavaquinho, tinha rabeca, tinha pandeiro, tinha violão, tinha tudo. Era uma festa mesmo pra....
Nena Gama : E bebida?
Irmina: Bebida a vontade, comida pra todo mundo. Tinha muito café de noite. Papai levava sacos de rosca, saco de pão, mamãe fazia aquela imensidade de biju, farinha de tapioca, fazia imensidade de doce, sabe? Doce de laranja, esses doces todos e o irmão da Maria Luiza se lembrou de uma ocasião, que ele veio quando ele era novo, e disse: "Como eu roubava doce da D. Domingas". "Nós ficávamos na mesa, sentados"... ele dizia, em volta tinha banco de um lado e do outro e ele sentava e começava a conversar. Os rapazes e as moças né? Então ele disse que olhava pra trás, assim, e tinha aquela terrina grande, e eles metiam as mãos assim ó, com um cabinho, botava na mão e comia tudo. Comia na mão. Ele dizia: "As coisas roubadas são muito gostosas".
Nena Gama: Que festas, hein?!
Irmina: E o pessoal que vinha pra cidade assim que amanhecia. O pessoal ali do Paraty Mirim, da Itatinga, daqui do Corisco, esse pessoal todo ficava lá em casa e esperava pro almoço ainda. No dia seguinte tinha de fazer almoço, depois do almoço que eles vinham embora.
Nena Gama : E onde é que dormia esse povo todo?
Irmina: Não dormia, dormia nada! Não dormia. Dançava a noite toda. Dormia sim, quando de noite cansava uma pessoa, deitava. Uma ocasião o Joãozinho do Seu Antun estava dormindo numa cama, aí uma das meninas de lá de casa deitou também pensando que fosse a irmã. E quando acordou, foi ver, era o Joãozinho. O Joãozinho estava dormindo, mas tudo de porta aberta, toda hora passa um passa outro... só pra descansar né? Mas era tudo muito à vontade! Lá em casa era muita fartura!
Nena Gama: E depois pra voltar, quando acabava a festa eles iam como, de barco também?
Irmina: Vinham a cavalo, de caminhão, a pé, e outros vinham de barco.
Nena Gama : E caminhando, quanto tempo levava?
Irmina: Mais de duas horas.
Nena Gama : E de quem é hoje a fazenda?
Irmina: É do Meirimar. Mas não existe mais nada.
Nena Gama : Não tem nem uma choupana por lá?
Irmina: Só mato. Dizem que tem ainda uns pedaços da roda, não é Lulu? Diz que tem os raios. As cambotas apodreceram todas.
Nena Gama : D. Irmina, a senhora lembra de outros engenhos aqui da região? Chegou a conhecer algum?
Irmina: Tinha o Engenho D’água né, o da Serraria, tinha o do Rio dos Meros, o do avó dele (apontando para o marido) da Olaria, o do Geraldo Del Frizia, aí na Várzea, na Graúna também tinha engenho, não é, Lulu?
Nena Gama : E tem um lugar, é que outro dia eu estava entrevistando o Tico, o Tico Babão, sabe quem é? Então, o Tico estava falando de um lugar que chama Castelo, e que lá tinha um casarão antigo, onde paravam os barcos...
Irmina: O Castelo é pertinho de lá de casa.
Nena Gama : Ah é, e a senhora chegou a conhecer?
Irmina: Não. No meu tempo já era ruína. Quem comprou esse pedaço, chamado Castelo, é a Lore. A Lore foi dona do castelo. Dizem que foi muito bonito, que ainda tinha assim uma espécie de um porto, né, Lulu? As pedras assim certinhas, como um caisinho. Aquilo foi desmoronando com o tempo, com as marés grandes. Mas dizem que foi muito bonito lá. A Serraria também era muito bonita.
Nena Gama : E quais eram as famílias mais importantes daquela época, da época da senhora jovem?
Irmina: As famílias importantes da cidade era a do Seu Leontino Mello, pai dele, (apontando para o marido), o Antun Gibrail que era irmão do Seu José Gibrail. E a do Otávio Gama também foi importante. Do Benedito José também.
Nena Gama : D. Irmina, e a senhora lembra de alguma modinha ou mesmo reza, ou oração?
Irmina: (cantando) Com a letra A, com a letra A começa o nome de meu bem, com a letra A começa o amor que a gente tem... Ai quem me dera ser o ladrão, pra poder roubar, pra poder roubar o teu grande coração...
Nena Gama : Como é que foi Seu Lulu que o senhor começou a namorar essa menina?
Lulu: Ela namorava o meu irmão...
Irmina: (interferindo) Não diga que eu namorava que era mentira!
Lulu: Ela namorava o Floriano, e por um acaso brigaram, aí um dia o Floriano disse assim pra mim: "Ô Lulu, olha, a Irmina vem pra cidade, hoje, amanhã tem missa, tem festa aqui e coisa e ele vem com a turma e você vê se faz as pazes dela comigo. Porque ela está brigada comigo." Aí eu passei e encontrei ela agarrada com aquela turma grande, eu fui e disse: "Irmina, o Floriano mandou dizer que quer fazer as pazes com você". Ela foi e disse: "Ah, diz ao Floriano que não me interessa não!" Eu disse: "E eu, não interessa?" Ela foi e disse: "Ah, não sei". Aí saiu andando e olhando pra trás, andando e olhando pra trás. Aí quando virou no canto, de lá debaixo da Santa Rita (a igreja), perto de onde agora é a padaria do Israel, ela foi e parou e ainda fez assim (dá adeusinho com a mão). Aí eu pensei: "Então ta pra mim! Quando foi de noite eu encostei. Aí começamos a namorar".
Nena Gama: E é um casamento feliz, Seu Lulu?
Lulu: Feliz de tudo.
Nena Gama : D. Irmina, e em relação as brincadeiras nas festas, como a do Divino, como eram? O boi, a miota, o cavalinho...
Irmina: Tinha. Naquele tempo era muito bonito. Puxa vida! O melhor da festa era essa parte aí, a gente era moça mas gostava de ver isso aí. Até as moças iam ver. Eu me lembro que teve uma ocasião, saiu a bandeira da igreja...
Nena Gama : A bandeira do Divino?
Irmina: É a bandeira do Divino saindo da igreja e naquela hora já vinha o boi, o cavalinho, aquela coisa toda. E ia um cara pagando promessa atrás do boi com a vela acesa (rindo muito). Ele se misturou sabe, e na hora de sair falaram pra ele: Ô fulano, você está pagando promessa a quem? "Ué, ao Divino Espírito Santo!" "Mas você está acompanhando o boi!" E ia ele com uma vela acesa (diz as gargalhadas). Mas era muito bom... E além da festa o carnaval de antigamente....Ah, que carnaval! Eu nunca gostei muito de carnaval, sabe, eu gostava muito dos bailes no clube, assim bem social. Um baile a rigor. Lembra Lulu, daquele do vestido cor de rosa? Numa ocasião fizeram um com os rapazes todos de azul marinho e gravata vermelha e as moças todas, todas de cor de rosa. Podia fazer de qualquer fazenda desde que fosse cor-de-rosa. Longo, vestido bonito e tudo. E o nosso cor-de-rosa foi de organza, que era aquele organdi fininho. Todo mundo. Mas foi um baile muito bonito. Desses bailes eu gostava mas de carnaval eu não gostava, nunca gostei. Mas você sabe que o carnaval daqui era bom? Tinha aqueles blocos. Blocos muito bonitos... Faziam três blocos. Era o Tenente, o Finiano e o Democrata. Mas, eram imensos, não era com um pouquinho de gente não. Era de encher uma rua. Só que um não se dava com outro. Então todos eles tinham banda, aquela música, aquela bagunça, mas cantavam, cantavam. E cada qual queria fazer a fantasia mais bonita. Fantasias bem bonitas, faziam tudo quanto era tipo de fantasia. Muito bonito!
Nena Gama : E os mascarados?
Irmina: Ah, os mascarados, todo mundo cantava, as moças também cantavam, pulava, sambava...
Nena Gama : E dizem que serviam no carnaval muita limonada, muita cajuada, é verdade?
Irmina: É, cajuada, limonada e muito limão de cheiro. Pra jogar um no outro. Lança perfume, né?
Nena Gama : Mas como era esse limão?
Lulu: Era uma bola de cera. Tinha uma forma de fazer limão de cheiro. Com biquinho, e enchia de água e as vezes eles faziam com mijo.
Nena Gama : Com urina? Enchiam aquela bola de água ou urina?
Lulu: É, pra jogar um no outro.
Nena Gama : Que farra!
Irmina: E ninguém brigava, era tudo festa, ninguém brigava.
Lulu: Andavam com latas de água nas costas pra jogar em cima do outro.
Irmina: Carnaval era tudo isso. Passava uma pessoa você pegava uma bacia de água e jogava. Molhava, tudo assim...Se for fazer isso hoje, sai tiro.
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