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Como fazer a Festa do Divino segundo Diuner Mello PDF Imprimir E-mail
17-Mai-2007 às 16:48
O Paratiense Maio de 2001

 

O pesquisador paratiense Diuner Mello fala, em entrevista, sobre seu livro MANUAL DO FESTEIRO DO DIVINO EM PARATY (em fase de conclusão). Ele explica por que resolveu elaborar um manual para o festeiro e descreve as pesquisas que realizou sobre a Festa do Divino em várias cidades históricas dentro e fora do Brasil.

Texto: Nena Gama

Nena Gama: Por que você achou necessário e importante escrever este livro – Manual do Festeiro do Divino?

Diuner Mello: Ultimamente a gente tem visto que os festeiros não estão entendendo muito das coisas da Festa do Divino. Certos detalhes que, às vezes, podem passar desapercebidos mas são importantes na tradição da festa. E eu não sei se pela não formação religiosa desse pessoal, ou mesmo até pela não freqüência à Igreja dos últimos festeiros. Também tem isso. A gente tem visto que muitas coisas importantes deixam de ser feitas e estão acrescentando coisas que não tem nada a ver. Aliás que não se justificam. O livro tem duas intenções: primeiro, realmente ensinar alguém que queira fazer uma festa direito, como ela era e segundo, é uma forma de preservar como aconteceu, porque pode ser que daqui pra frente não aconteça mais dessa forma. Eu estou tendo, inclusive, um cuidado de registrar fatos, versos, receitas de doces, receitas e outras coisas, dando nome e autoria. Porque Paraty tem muito disso, muita coisa aconteceu, muita coisa acontece, preservado por uma série de pessoas e que acaba não tendo o nome conhecido. Com o passar dos anos os fatos continuam e as pessoas desaparecem. Um exemplo mais simples que eu posso dar é, no caso, a própria decoração da igreja. Você tem um grupo, de mulheres que trabalham aquilo e que não são reconhecidas. Então, não custa citar que a decoração da igreja, nos últimos anos, ficou à cargo de fulana, fulana e fulana. Que nada pode ser feito sem consultá-las nesse sentido, porque têm uma noção, inclusive, que podemos chamar de tradição, mesmo que seja curta, de 15 de 20 anos. E os novos que estão entrando na equipe dessas senhoras, de decoração, estão aprendendo também. Pouco importa se o material é novo ou se a técnica utilizada é nova, mas pelo menos, a informação vinda através de uma tradição elas têm.

Nena Gama: E a pesquisa, como foi feita? O teu pai mesmo, eu sei, foi festeiro várias vezes, você sempre acompanhou tudo mostrando grande interesse. Você tem, inclusive, boa formação religiosa. Essa pesquisa é apenas baseada na vivência e na informação dessa festa ou você também buscou em livros e outros tipos de registros importantes?

Diuner Mello: Olha, o que mais me fascina na Festa do Divino é o seguinte: Pelo menos em Paraty, eu descobri que são poucas cidades, sim, que o fato é diferente. A Festa do Divino foi, sempre, essencialmente popular. É uma festa feita pelo povo, é alguém que sai do povo para ser Festeiro. Não se trata de nenhuma irmandade, uma organização. São raras as cidades em que existe uma irmandade do Divino Espírito Santo encarregada de fazer a festa. No mais, todas as outras cidades onde ela acontece é praticamente igual a Paraty. É um Festeiro escolhido a cada ano por sorteio.

Nena Gama: Mas havendo uma candidatura antecipada, não?

Diuner Mello: Sim, mas muitas vezes, em alguns lugares e, em Paraty também, já foi feita assim por sorteio durante a missa.

Nena Gama: Na época a qual você se refere deveria haver muitas pessoas interessadas se candidatando, ao contrário do que acontece hoje. Porque ninguém mais quer ser festeiro...

Diuner Mello: É, as coisas mudam. Mas o sorteio, em alguns lugares, ainda é feito durante a missa. Quer dizer, é um sorteio. O Festeiro sai do meio do povo. Como você falou, o meu pai foi Festeiro algumas vezes, então comecei a entender a festa. E quando assisti a outras, descobri que há muitas semelhanças e me assustei, porque o Brasil é um país continental. De repente eu vi que a festa de São Luiz do Maranhão tem elementos semelhantes aos da festa de Paraty, aos da festa de São Luis do Paraitinga, da festa de Goiás, da festa de Diamantina, gente! É diferente de Portugal, que é um ovo, onde são quilômetros para lá e quilômetros para cá e a festa se mantém igual. Mas no Brasil continental, como isso se preserva? Então, partindo desse princípio, eu também comecei a fazer comparativos para buscar alguns elementos existentes em cada festa. Pelo menos nessas marcantes, como é o caso de São Luis do Paraitinga e Diamantina, que têm uma fama muito grande, Pirenópolis, São Luiz do Maranhão e Alcântara. Mesmo quando eu não assisti à festa eu acabei fazendo pesquisa através de documentários ou livros. Pode até parecer brincadeira, mas uma das coisas que me assustou é que o típico em todas elas, não sei porquê cargas d’água, é servir bolinho de arroz na alvorada da festa.

Nena Gama: Seja a festa no Norte ou no Sul do país?

Diuner Mello: Norte, sul, leste e oeste tem bolinho de arroz e em Portugal também. Eu não sei se é por causa do tempo da colheita do arroz, não sei se a tradição passou de lá prá cá, eu não sei.












Nena Gama: É aquele bolinho onde o arroz cru é socado no pilão?

Diuner Mello: Exatamente, o mesmo das festas de Cunha, São Luiz, etc... Em Itanhaém chega-se ao ponto de, à noite do sábado, na véspera da festa, acontece o que é chamado de "A noite da soca" .Eles passam a noite a socar o arroz e a cantar para preparar o bolinho para a alvorada do domingo da festa.

Nena Gama: Seria alguma simbologia ligada à idéia de fartura, prosperidade? Até mesmo porque, nas cerimônias de casamento costuma-se jogar grãos de arroz sobre os noivos...

Diuner Mello: Pois é, pode até ser, mas o fato é que a tradição se mantém como veio de Portugal. Há outros detalhes. Por exemplo, o mastro. Praticamente em todos os lugares da festa tem mastro. Todos os lugares têm uma ou mais bandeiras. Pelo menos uma bandeira tem. Diamantina tem uma bandeira só, que é a bandeira do Festeiro. Em compensação, Em São Luis do Paraitinga tem um monte de bandeiras e dizem eles que copiaram de Paraty, porque antes só tinham a bandeira do Festeiro, que é a própria bandeira da folia. No Maranhão existe a bandeira do Festeiro e lá tem uma bandeira vermelha e outra bandeira verde. Nos Açores também existe a bandeira.

Nena Gama: Sempre vermelha e com a pomba em cima?

Diuner Mello: Nem sempre vermelha, às vezes branca, com a pomba em cima de um globo sobre o mastro ou enfeitada com flores ou com arco. Inclusive em Tomar, Portugal, considerada a maior Festa do Divino, eu acho que perdeu toda a essência da Festa do Divino. Hoje, lá, é chamada de Festa dos Tabuleiros. São uns tabuleiros de flores de papel crepon e pães carregados pelas mulheres. É uma coisa belíssima. Eles, os tabuleiros, são encimados por uma coroa ou uma pomba. Só que a festa dos tabuleiros acontece de 4 em 4 anos e também já não é celebrada na data de Pentecostes, mas é a Festa de Pentecostes mudada, já mudada. Mas nos Açores ela é mantida praticamente igual a de Paraty. Ainda tem folia e tem um objeto que eu não consigo descobrir explicação para ele que é o quadro que o Imperador vai dentro. Em todo o Brasil existe aquele mesmo quadro onde o imperador vai dentro acompanhando a procissão. São quatro varas pintadas e amarradas que as pessoas carregam e o Imperador vai no centro. Porque não uma corda ou outra coisa? Porque o mesmo quadro sempre? É impressionante. Em que pese que a festa, por exemplo, é como em "A Moreninha", não! Não seja como em "Memórias de um Sargento de Milícias", em que você descobre que a festa é uma pândega, uma zorra.

Nena Gama: Bem, mas há também a troça na Festa do Divino. Tanto é que os versos que falam da divisão da carne do boi são uma grande brincadeira que nos faz rir, não é mesmo? É uma coisa bem humorada. Existe também essa divisão cantada em versos nos outros estados? Porque aqui, pelo menos nos versinhos que lembro, diz-se que o filé mignon vai para o D. João, a alcatra vai para a Dona Mulata, ou seja, pessoas nossas conhecidas...

Diuner Mello: O boi está estreitamente ligado à Festa do Divino também. Há uma certa suposição de que no Brasil isto seria devido ao Ciclo do Gado existente no Nordeste. E em Portugal, que não teve Ciclo do Gado, porque o gado também é presente? Em Tomar, por exemplo, os bois que vão ser mortos desfilam pelas ruas enfeitados, como num grande cortejo, antes de serem mortos. O boi está extremamente ligado, talvez, à questão da alimentação, já que em todas as outras festas, também, não é só tradicional servir o almoço, é tradicional dar carne de vaca, pão e vinho para os pobres, que era uma maneira de se fazer uma boa refeição.

Nena Gama: E tem as brincadeiras do boi de pano com as crianças!

Diuner Mello: Exato. Eu tenho a impressão de que a brincadeira com o boi de pano surgiu, inclusive, em razão da proibição das touradas em Portugal. Aí vira a pândega, a brincadeira, já que a tourada é proibida em Portugal por D. José em mil, setecentos e tantos...

Nena Gama: Faz muito sentido...

Diuner Mello: No Brasil, quando esta festa cria maior força, exatamente nos séculos 18 e 19, com a presença da Família Real, Império, essa coisa toda, cria muita força a presença do boi já como uma brincadeira. Porque o nosso boi da festa diferencia do boi bumbá, de São Luiz do Maranhão, do Bumba meu boi, que é um auto. O nosso boi bumbá é uma brincadeira. Os versos são engraçadíssimos. Eu fui entrevistar a Dina, filha do ‘Perrié’, que foi um dos últimos repartidores do boi. Mas o engraçado é que ela não aprendeu com o pai dela. Ela aprendeu com Seu Zuzu, porque o pai dela já havia morrido, e só como filha dele é que ela resolveu continuar. Mas tem um jornal de mil, novecentos e trinta e pouco, 40, que o Cleanto Maranhão faz os versos daquele tempo e que também é brincadeira. Não tanto quanto a Dina cantava, mas rimando com o pessoal.

Nena Gama: Fale sobre a origem da festa. Como ela chegou até nós?

Diuner Mello: A Festa do Divino chegou com os primeiros colonizadores, dentro do barco mesmo. E a prova disso é que a gente tem descrição de Festas do Divino que aconteciam dentro dos navios em direção à India ou à Africa. E o interessante é que, assim: como a festa aconteceria durante a viagem, eles já levavam cetro, coroa, manto, tudo, já iam prevenidos para ter. Em 1561, há uma descrição assim: "Dia de Espírito Santo se fez muito solene festa em nossa nau, porque costumam, como honra de tal dia, eleger um Imperador na nau, ao qual servem todos os capitães e os demais por todo aquele dia. Estava a nau toda enfeitada, embandeirada, toldada de guardamessins muito frescos com um dossel de tafetá azul, onde o Imperador tinha a cadeira. À hora da véspera, vésperas de canto de órgão, porque na nossa nau havia quem o sabia fazer e bem, assim também, cumprindo meu ofício, tive de coroar o Imperador. O capitão dizia que aquilo se fazia para engrandecer a Festa do Espírito Santo e por devoção. E assim não havia por que recusar. Depois de dizer missa cantada, fiz prédica ao Imperador, empossado com toda a sua corte, a gente, ao que parece, ficou contente. Deu-se mesa franca à toda a nau, a qual estava vestida como na corte de sua majestade." Outra carta que, passado o tempo, o que se tem é que se está em Paraty: "1583 - Viagem para Goa: Na viagem elegeram um menino para Imperador na vigília de Pentecostes, no meio de grande aparato. Vestiram-no depois ricamente, puseram-lhe na cabeça coroa imperial. Escolheram também fidalgos para seus criados e oficiais de ordens, de modo que o capitão foi nomeado mordomo da sua casa. Outro fidalgo foi nomeado copeiro, enfim cada um com seu ofício à disposição do Imperador. Entraram nisto até os oficiais da nau, o mestre, o piloto, etc.. Depois, no dia de Pentecostes, ou Páscoa do Espírito Santo, trajando todos a primor, fez-se um altar na proa da nau por ali haver mais espaço, com belos panos e prataria. Levaram, então, o Imperador à missa, ao som de música, tambores e festas, e ali ficou sentado numa cadeira de veludo com almofadas, de coroa na cabeça e cetro na mão, cercado pela respectiva corte, ouvindo-se entretanto as salvas de artilharia durante a missa. A seguir veio o banquete, em que os fidalgos serviram o Imperador, apesar dele não pertencer à nobreza. E também o serviram o copeiro, o trinchante, etc... Comeram depois os cortesãos e o Imperador e, por fim, serviram toda a gente ali embarcada, à volta de 300 pessoas."

Nena Gama: Você sente que há algo mudando na tradição da festa?

Diuner Mello: A gente precisa ter muito cuidado com a expressão ‘mudança’. A Festa do Divino tem uma linha central, mestra. Vamos dizer que é a questão da figura do Imperador, a distribuição de comida, a festa em si é povo e religião, profana e religião. Agora, na parte religiosa, muda o conceito da própria Igreja, uma mudança de liturgia. Muda-se do latim para o português, muda na participação dos fiéis que hoje ela é mais intensa do que antigamente, na própria celebração, na parte profana também. Vou dar um exemplo lógico... Paraty tinha cavalhada na Festa do Divino e deixamos de ter. Por quê? Deixamos de ter porque Paraty deixou de criar cavalos. Nós tínhamos cavalhada num tempo, acredito que até os séculos 18 e 19, devido ao grande número de tropas e de fazendas com criação de cavalo. Passado isso, deixou de existir a coisa. Talvez em Cunha exista a cavalhada como a de São Luis do Paraitinga, com muito mais razão, pois é uma área mais rural e dedicada, exatamente, à pecuária e à criação de gado. Paraty deixou de ter essa função, então se perdeu isso. Hoje, seria válido recuperar? Não sei, tenho minhas dúvidas. Tenho minhas dúvidas porque não seria uma coisa espontânea. Então é preferível deixar que em Pirenópolis aconteça, em São Luis do Paraitinga aconteça e que aqui a gente mantenha aquelas coisas que a gente manteve e que, por exemplo, nos outros lugares se perdeu. Agora, que também na parte profana haja por exemplo a presença de escola de samba, por que não? A função da parte profana é exatamente animar, divertir a festa, divertir o povo ou retribuir o povo do trabalho dele ou da contribuição que ele deu em dinheiro. Então eu acho que a gente tem que ter um tempo, um espaço. Nós temos hoje, ciranda; a ciranda é uma coisa nossa, então se ela continua a existir, vamos ver a ciranda. Aquilo que deixou de existir, que não há como recuperar é preferível não recuperar. Agora, o problema sério atual é que a festa está ficando cada vez mais onerosa. O Festeiro é um festeiro da Igreja para fazer uma festa religiosa. E enquanto a comunidade era pequena e a festa se restringia ao povo de Paraty, nós tínhamos uma obrigação menor. O Festeiro, hoje, encara uma obrigação com um público muito grande. Paraty cresceu. Vamos colocar 30 mil pessoas em Paraty. Além disso você coloca mais 15 de fora, 45 mil pessoas aqui... O Festeiro tem essa obrigação com a parte religiosa, com a parte de comida, com a parte de brincadeira, com a decoração de igreja, com a decoração de rua, ou seja, os encargos estão se somando nas costas dele. Eu acho que hoje, pelo próprio conceito da participação ou da parceria, vamos colocar o que mais se fala hoje em dia: a Prefeitura tinha que ser parceira do Festeiro em muitas coisas. Por exemplo, na parte de brincadeiras, jogos, ativação noturna e recreação, a Prefeitura deveria assumir isso como encargo e função própria, inerente dela. Mas não só a realização, como inclusive o pagamento de. Assumir a recreação no sábado, das crianças, porque perdeu muito. Sábado era um dia dedicado às crianças e não existe mais. E a decoração da cidade também compete, deve competir à Prefeitura. O Festeiro então ficaria já com os encargos mil, que é fazer a festa em si, angariar dinheiro, fazer a parte religiosa, fazer o almoço, fazer doces, organizar toda a questão do Imperador, que hoje está também colado nas costas do festeiro. Porque tradicionalmente, o Imperador era uma figura rica, que fazia os últimos dias da festa, os últimos dias eram dele, a coroação dele. Então, a distribuição de doces, a festa do domingo, era por conta do Imperador. Hoje, Imperador e Festeiro são a mesma coisa. O Imperador é filho do Festeiro, é sobrinho do Festeiro, é parente do Festeiro. Daí o Festeiro veste, arruma, ele é que faz os doces, então eu acho que hoje a festa está mudando, pode mudar...

Nena Gama: Por causa desse crescimento?

Diuner Mello: É. E pode mudar para melhor. Pode mudar sem perder a essência dela. No caso, eu acho que alguma coisa alguém tem que auxiliar o Festeiro, mas de obrigação. E eu acho que quem só pode fazer isso é o poder público.

Nena Gama: Mas você acha, também, que a comunidade está percebendo isso, isto é, sentindo essa necessidade de uma discussão mais ampla com a administração municipal para, realmente, até estabelecer novas regras para o acontecimento e a realização dessa festa?

Diuner Mello: Olha, eu acho que a comunidade está sentindo sim, mas o pior é que as autoridades sempre vão atrás, correm atrás do prejuízo, aliás essa expressão é feia, mas correm atrás do prejuízo mesmo. Pelo seguinte, o povo já está consciente disso, por isso tem medo inclusive de assumir a festa. Hoje, são poucos os candidatos a Festeiro. Eles estão conscientes de que vão dar de cara com uma trabalheira imensa e que talvez fiquem criticados por não ter feito uma festa tão boa quanto a anterior.

Nena Gama: É que, na verdade, é uma festa que provoca uma expectativa na população durante o ano todo, não?

Diuner Mello: É. Isso parte daquele velho ditado paratiense a respeito de Festa do Divino: "É pelo arriar do mastro que se conhece o Festeiro". Quer dizer, a partir da descida do mastro no ano anterior, a expectativa já fica para saber se o Festeiro é bom ou ruim. Partindo desse princípio, é uma responsabilidade imensa jogada nas costas de um só. Porque a comissão é agregada. Mas o Festeiro é ele. Eu acho que compete já à administração da Paróquia, acho que a Igreja tinha que sentar com a Prefeitura já. Por base, definir as presenças, até onde vai a função de cada um, já que hoje não é só uma festa religiosa, é uma festa de calendário turístico, a cidade a aproveita em função do turismo.

Nena Gama: E você acha que isso pode acontecer?

Diuner Mello: Eu acho que tem que acontecer.

Nena Gama: Mas já existe alguma coisa sendo organizada neste sentido?

Diuner Mello: Olha, eu não sei e a minha esperança é que esses padres novos que assumiram agora, eles tenham uma visão mais nova, aliás não é nem mais nova. Eles têm uma visão mais brasileira. Os outros padres, sem nenhum defeito nisso, eles eram estrangeiros e tinham dificuldade em entender essas coisas brasileiras.

Nena Gama: Esses que estão aqui são brasileiros?

Diuner Mello: Brasileiros, então eles conhecem festas, eles entendem o viver do brasileiro e até como a religiosidade do brasileiro se expressa, que é diferente da religiosidade do europeu, que era o caso do Padre João, do Padre Henrique, de todos os últimos que nós tivemos nos últimos dez, quinze anos, por aí. Então a minha esperança, pelo menos a conversa que eu tive com os padres, com o pároco atual, é isso, é que eles juntem, quer dizer, a igreja junto com a prefeitura definam funções para, inclusive desonerar o festeiro. Pelo seguinte, porque o comércio já entendeu isso há muito tempo. Porque quem faz essa festa são os comerciantes, é o povo que dá, que dá alimento, que dá refeição, que dá isso, que dá aquilo...

Nena Gama: Cabe a eles a organização das coisas, não é isso?

Diuner Mello: Exato, então, no caso, é a igreja sentar com a prefeitura e definir. Definir e estruturar. Porque da parte da igreja a festa pode continuar existindo com procissão de bandeiras , coroação de imperador... e o resto? a parte profana a quem cabe? Quer dizer, eu acho que a prefeitura tem que assumir esta parte de qualquer jeito em razão da tradição, em razão da cultura local e principalmente a razão do turismo, que é fonte de renda do município.

Nena Gama: Você poderia me dar uma definição do que representa a Festa do Divino pro povo paratiense?

Diuner Mello: Olha, bem, eu, é terrível dizer isso mas eu não creio em quase nada. Agora, o que eu acho que as maiores expressões de fé que eu já assistí na minha vida foram de gente simples, primeiro, aliás, quanto mais simples, mais fé, né? mais força. Na festa do divino e em Santiago de Compostela foram as únicas vezes que eu vi expressão de fé e senti inveja de não acreditar. Mas você vê a fé do povo em carregar uma bandeira, em se sacrificar, porque, às vezes, são pessoas já idosas, ou mesmo com problemas para andar, aí que andam quilômetros para lá, quilômetros para cá durante nove dias caminhando, carregando bandeira, são pessoas que fazem trabalhos humildes de lavar, varrer, limpar, gente que não aparece, não é nem para aparecer mesmo e são em pagamentos de promessas. Há um caso que agora me lembro, essa história da soltura do preso, né? Uma vez a gente teve um homem que fez uma promessa de ser o preso para ser libertado na festa do divino. Tudo bem, era um preso falso, ele poderia só aparecer na hora da festa e ser solto. Absolutamente. Ele fez questão de ir para a cadeia na noite anterior, dormir lá para ser solto no dia seguinte. A sensação de estar preso, de fato, realmente, não simplesmente uma cenografia. Bem, e eu perguntei por que a esquizitisse. Ele disse que era uma promessa, era um ato de fé, ele tinha recebido uma graça do espírito santo e tinha que pagar o compromisso que ele assumiu. Gente isso é impressionante, você vê isso o tempo inteiro. Nos dez dias de festa você vê manifestação de fé, da mais pura, mais simples, a mais genuína e comovente.

Última Atualização ( 29-Mar-2008 às 11:32 )
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