Semana Santa em Paraty

Texto: Secretaria Municipal de Turismo/ fotos: Lia Capovilla  

Ainda hoje Paraty mantém muitas manifestações tradicionais como nos séculos XVII e XVIII,algumas foram adaptadas, como é o caso da “Procissão do Encontro” que antes era realizada uma semana antes da Sexta-feira Santa e hoje acontece na própria sexta-feira.

Apesar da extinção das irmandades que aqui existiam, no calendário abaixo você pode conferir todas as procissões e celebrações que até hoje são preservadas pela paróquia e pelo povo paratiense – maior guardião da sua própria cultura.

Vale ressaltar o trabalho do paratiense, museólogo e arquiteto Júlio Cesar Dantas, responsável pelo IPHAN (Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional) em Paraty. Através de uma monografia feita por ele, o IPHAN vem recuperando os seis Passos da Paixão existentes no Centro Histórico. Os Passos são como portas embutidas nas paredes dos sobrados e casas, neles estão representados os principais momentos da Paixão de Cristo como o horto das oliveiras, a prisão, a coroação de espinhos, Jesus na varanda de Pilatos, com a cruz nas costas, a crucificação e o último, representa o calvário e fica no interior da Igreja Matriz.

Estes monumentos haviam sido demolidos em 1922 por estarem em péssimo estado de conservação, e muitos deles haviam sido substituídos por portas que levavam ao interior de casas. Foi preciso um estudo profundo sobre a localização correta dos Passos para sua reconstituição. Algumas das portas originais foram encontradas nas igrejas da cidade e outras foram confeccionadas por marceneiros experientes com o acompanhamento técnico do IPHAN.

Graças a trabalhos como esse a história de Paraty não se perdeu no tempo e ainda hoje revive tradições dos anos de 1600. Os Passos vieram da tradição de Via-Crucis existente em Portugal, ainda no período colonial, quando diversos Passos da Paixão foram construídos em cidades brasileiras como Tiradentes, São João del Rei, Ouro Preto e Congonhas do Campo.

As preparações da Semana Santa nos séculos XVII e XVIII

As celebrações da Semana Santa em Paraty começavam na quarta-feira de cinzas com Via-Sacra. À partir de quarta-feira eram colocados nos altares véus ou panos e no Domingo da Paixão (uma semana antes do Domingo de Ramos), os panos eram fechados em sinal de luto.

Na Sexta-feira da Paixão acontecia a Procissão do Encontro – quando as imagens de Cristo e de Nossa Senhora das Dores se encontravam. Depois o Cristo crucificado era levado para a igreja onde ficava junto ao Passo que remonta o calvário (lendo o texto a seguir você entenderá melhor). A figura do Centurião participava desta Procissão assim como da do Fogaréu e do Enterro. O personagem seguia a frente anunciando o cortejo.

Somente na Sexta-feira Santa é que o Cristo era retirado da cruz e colocado em um esquife. Uma outra cerimônia ligada a Semana Santa e que também antecedia a celebração é o “Setenário de Nossa Senhora das Dores”, que acontecia todas as noites na Capelinha das Dores e culminava com a coroação de Nossa Senhora no Domingo da Ressurreição.

Domingo de Ramos

No Domingo de Ramos na Igreja da Matriz era realizado o “Ofício de Ramos” com procissão e missa em seguida. Uma procissão saía da Matriz e voltava encontrando a porta trancada propositalmente. Coroinhas e cantores – que estavam fora da igreja – entoavam o “Gloria et honor a Cristo Redentor” e o clero – que estava no interior – respondia de volta.

Batia-se então 3 vezes na porta com a ponta da cruz e nesse momento a porta da igreja se abria.

A igreja fechada representava o céu, no qual não entraria ninguém por causa do pecado de Adão e Eva, mas pela cruz elas eram abertas. Esta procissão evocava Jesus entrando em Jerusalém como triunfador.

Quarta-feira Santa

Nesse dia começava o luto da igreja, quando foi proferida a sentença de morte à Jesus Cristo. Na época a igreja realizava o “Ofício das Trevas”. A cerimônia acontecia com as luzes apagadas e com 15 velas acesas sobre um candelabro triangular e aos poucos as chamas eram apagadas.

Alguns dizem que o apagar das velas significava a morte lenta de Jesus. Depois da cerimônia era comum se fechar o livro com um estrépito ao som das matracas. Cantavam-se lamentações do Profeta Jeremias e no final rezava-se o Miserere.

Quinta-feira Santa

Uma missa matinal com comunhão era celebrada. Era exposto o Santíssimo Sacramento. Às 16:00hs realizava-se a cerimônia do Lavapés, quando o padre lavava os pés de doze presentes, na tentativa de remontar a cena de Cristo lavando os pés dos apóstolos durante a última ceia e simbolizando a sua humildade.

Depois o Santíssimo era levado para um altar preparado especialmente para este fim, onde tinha início a adoração, que continuava até o dia seguinte.

Deste dia em diante durante a Semana Santa, não se tocam mais os sinos e campainhas – que eram substituídos por matracas – em sinal de tristeza e luto.

Durante a noite acontecia a Procissão da Prisão, mais conhecida como Procissão do Fogaréu por causa do grande número de archotes e velas que as pessoas carregavam. Esta procissão passava por todas as igrejas entrando pela porta lateral e saindo pela porta da frente e simbolizava um pedido de desculpas pelas indignidades cometidas.

Sexta- feira Santa

Nesse dia pela manhã era realizada a Paixão , adoração da cruz e missa dos presantificados. Às 21:00hs acontecia o Descendimento da Cruz. A imagem do senhor crucificado que era guardada na igreja uma semana antes – ao final da Procissão do Encontro – na sexta-feira santa era colocada em um esquife pela irmandade do Santíssimo Sacramento.

Iniciava-se então a Procissão do Nosso Senhor Morto – uma cerimônia com forte cunho teatral e emocional, típica dos séculos XVII e XVIII. Dela participavam personagens vestidos a caráter como Nossa Senhora, Maria Madalena, Samaritana, Verônica, representada por um anjo e São João.

Nela o caixão era carregado pelos irmãos do Santíssimo Sacramento sob o pálio, seguido pela imagem de Nossa Senhora da Soledade. Esta procissão fazia paradas diante dos seis Passos da Paixão existentes nas ruas do Centro Histórico – para exposição do santo sudário – e depois se dirigia para a Igreja Matriz onde está o último Passo.

Sábado de Aleluia

No sábado de manhã a igreja amanhecia com os altares descobertos e era realizada a Benção do Fogo Novo, da Pia Batismal e Círio Pascal. A Benção Pascal representava Jesus que acabava de sair do túmulo. O Círio representava o Cristo glorioso e vencedor da morte. Na cerimônia da Pia Batismal era celebrada a missa e cantada a ladainha. A tocata da Banda Santa Cecília no Sábado de Aleluia também é uma antiga tradição dos paratienses que esteve esquecida nos últimos 30 anos.

Domingo de Ressureição

Às 5:00hs da manhã saía a Procissão da Ressureição e depois era celebrada a missa solene. A Semana Santa em Paraty acabava com a coroação de Nossa Senhora das Dores.

Desta celebração participavam a Banda e Coral. Era costume também a tradicional malhação do Judas, que era artisticamente confeccionado e colocado em locais estratégicos da cidade, quando descoberto era malhado pelas ruas, com grande diversão das crianças e adultos.

A Semana Santa em Paraty era encerrada com a coroação de Nossa Senhora das Dores. Esta cerimônia acontecia com toda pompa e brilhantismo. Depois no adro da Igreja de Nossa Senhora das Dores era realizado um leilão de prendas, acompanhado da Banda.