Festa do Divino

Texto de Lelia Coelho Frota/ Fotos: Lia Capovilla

Paraty está entre as cidades brasileiras que souberam manter, enriquecer e trazer até nós, com renovada beleza, a secular festa do Divino Espírito Santo, presente na região fluminense desde o século XVII. Foi de tal ordem o prestígio dessa festa, em outro tempo comum a todo o Brasil, que Luís da Câmara Cascudo lembra que o Ministro José Bonifácio de Andrada e Silva preferiu para Pedro I, em 1822, ao título de Rei o de “Imperador”, pela extrema afetividade atribuída pela população a esta palavra. Em Largo importante como o da Glória, no centro da própria cidade do Rio de Janeiro, uma aquarela de Thomas Ender nos mostra, em 1817, bem em frente à Igreja, a casa do lmpério do Divino, construída em alvenaria, onde se coroava o Imperador. No meio da praça, na mesma aquarela, vê-se o mastro branco e vermelho, encimado pela tradicional bandeira do Divino, aí simbolizado pela figura da pomba. Trata-se aqui de uma festa móvel, celebrada no Domingo de Pentecostes, dez dias depois da Quinta-feira da Ascensão do Senhor e quarenta dias após o Domingo da Ressurreição, quando é levantado o Mastro do Divino, perto da Igreja. Na Paraty de hoje, crianças levam, nessa ocasião, o “quadro” (cordão segurado por quatro delas, formando um quadrado), dentro do qual é conduzida pelas ruas da cidade a pomba simbólica, para ser colocada em cima do mastro.

Bem antes desse momento, contudo, a folia do Divino já terá percorrido quase todo o município, cantando de casa em casa ao som de caixa, viola e pandeiro, e pedindo contribuições para a festa. Os foliões, conduzidos pelo “patrão”, levam consigo á Bandeira do Divino, e deslocam-se pelo município de canoa, quando é preciso ir às ilhas, ou então de carro ou ônibus, mas só até o momento de começarem as visitas de casa em casa, sempre a pé. Assim são percorridos Barra Grande, Graúna, Ilha do Araújo, Campinho, Corisco, Ponte Branca, Tarituba e todos os demais núcleos que concorrem para a festa, possibilitando que, ao menos desta forma, participem dela os que não puderem vir à cidade na véspera e no domingo de Pentecostes.

Hoje, a arrecadação feita no interior é reforçada – sob a coordenação da destacada figura do festeiro – pelo resultado da realização, na cidade, de bingos, cirandas, exposições na Matriz, bazares com artesanatos das donas de casa paratienses, festivais de pipoca, campeonatos de buraco, jogos de futebol, leilões de gado e de. prendas, rifas, bailes da saudade, doações de estabelecimentos comerciais e bancários, assim como de particulares.

É compreensível que o festeiro necessite de um ano, e, hoje, de maior apoio financeiro, para desempenhar-se bem da sua função, pois só em 1981, por exemplo, foram distribuídas gratuitamente aos presentes, em obediência à tradição, três mil e quinhentas refeições. A distribuição de comida e bebida no sábado, véspera de Pentecostes, é elemento incorporado à medula secular da festa do Divino, e quer representar a fartura que reinará no Tempo do Paráclito, que deve começar aqui e agora. Como em todas as comemorações de grande repercussão social da Igreja, é difícil, muitas vezes, traçar os limites entre o sagrado e o profano nesta Festa. Inscritas no âmbito maior do importante evento, estabelece-se entre estas categorias uma circulação, uma complementaridade que, em última instância, enfeixarão imbricadamente o encontro do humano com o divino.
Procurando caracterizar estes aspectos apenas para melhor proceder à síntese do seu acontecer na Festa, encontraremos, com vinculação evidente ao sagrado, a folia e seu percorrido rural, o levantamento do mastro, as novenas preparatórias à conseqüente instalação do altar na casa do festeiro, com a imagem dó Divino, coroa, cetro e salva. E ainda as procissões que unem os diversos momentos e espaços dá festa, as missas e as ladainhas, onde se destaca a figura mediadora do sacerdote.

De aparente vinculação ao profano estão as próprias figuras infantis do Imperador, seus Vassalos e Guardas, em desfile de procissão e coroação; o farto almoço distribuído no sábado, véspera de Pentecostes; a soltura de um preso comum, pelo Imperador, da Cadeia Pública; a escolha do festeiro para o próximo ano; as congadas, as danças do Velho, do Cateretê, das Fitas, das Cirandas; e, finalmente, as provocadoras e carnavalizadas saídas do Boi, da Miota, do Peneirinho e do Cavalinho, à noite, no sábado e no domingo de Pentecostes. Em Paraty se concretiza, através da complexidade e espontaneidade da participação da comunidade no trabalho e na alegria desse tempo, aquela distribuição natural de dons preconizada pelo espírito da festa do Divino.