Festa de N. S. dos Remédios

A festa da padroeira de Paraty é celebrada na cidade há mais de 300 anos. Fazem parte dela como, aliás, de qualquer manifestação religiosa na cidade, missas, ladainhas e procissões, além de dezenas de barracas de comes e bebes em volta da Igreja Matriz para onde a população se dirige após as celebrações religiosas.
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por Gilberto Galvão
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É curioso notar que este espírito comunitário está presente em todas as festas paratienses, sejam elas religiosas ou profanas. A festa da padroeira de Paraty dura 10 dias, culminando no dia 8 de setembro, consagrado àquela santa. A comunidade do Corumbê também homenageia esta santa, cuja capela é uma das mais belas do município.

No final do século 11, os árabes invadiram Jerusalém e passaram a hostilizar os cristãos que visitavam a Terra Santa. Diante disso, a Europa lançou as Cruzadas, uma série de expedições militares ao Oriente Médio, que se sucederam de 1096 a 1272, reunindo vários países, para incorporar essa região ao Ocidente e à fé cristã.

Na época das Cruzadas, surgiram por toda a Europa ordens militares e assistenciais de cunho religioso. Diferente das ordens religiosas que viviam em reclusão ou para a propagação do cristianismo, essas ordens eram poderosas organizações internacionais que atuavam direta ou indiretamente junto aos cruzados no combate aos muçulmanos. Entre essas ordens se destacaram os Templários, os Cavaleiros de Malta e a Ordem dos Trinitários.

A Ordem do Pobres Cavaleiros de Cristo e do Templo de Salomão, conhecida como Ordem dos Templários, foi fundada em 1119, junto às ruínas do Templo de Salomão, em Jerusalém, com o objetivo de apoiar os cruzados na manutenção dos territórios cristãos conquistados no Oriente e dar segurança aos peregrinos cristãos que continuavam visitando a Terra Santa.

Admirados em batalha, temidos pelo prestígio político e donos de considerável riqueza, que administravam com técnicas financeiras usadas pelo sistema bancário de hoje, os Templários se tornaram a Ordem mais poderosa da Europa até a perda da Terra Santa pelos cristãos, em 1303, quando o apoio a ela se reduziu drasticamente.

Foi quando o rei francês Filipe IV ou Filipe, o Belo, endividado com os Templários e diante da ameaça que eles representavam, engrossando o exército da igreja, passou a acusá-los de práticas heréticas. Com isso, a Ordem foi suspensa pelo Papa em 1312 e seus principais membros foram queimados vivos. Na França, a riqueza dos Templários foi para o Estado e, nos outros países, para a Igreja.

A Ordem Soberana e Militar Hospitalária de São João de Jerusalém, Rodes e Malta ou Ordem de Malta, entre vários outros nomes, que nasceu c.1099 como uma ordem beneditina, em torno de um hospital na Terra Santa, no início das Cruzadas, foi autorizada pelo Papa em 1113 e, sete anos depois, transformou-se numa ordem militar-assistencial, encarregada de proteger os peregrinos e cuidar dos doentes.

Com a derrota dos cristãos na Terra Santa, a Ordem se transferiu para a ilha de Rodes e, em 1530, para a ilha de Malta, no antigo reino da Sicília. Hoje, a Ordem de Malta é uma organização humanitária internacional que dirige hospitais e centros de reabilitação em diversos países.

Já a Ordem da Santíssima Trindade ou dos Trinitários tinha caráter assistencial, mas no sentido de resgatar prisioneiros cristãos junto aos muçulmanos, durante as Cruzadas. Fundada na França por S.João de Matha, no final do século 12, foi quem introduziu em Portugal a devoção a N.S.dos Remédios, no início do século 13.

De Portugal, essa devoção chegou a Paraty no século 17, quando D.Maria Jácome de Melo doou uma gleba de terras na várzea do Perequê, entre os rios Perequê-Açu e Patitiba, atual Matheus Nunes, para nela fixar a povoação de S.Roque, que vivia no morro do Forte, em torno de uma capela a esse santo.

E impôs duas condições para essa doação: a nova povoação deveria se chamar Paraty, peixe abundante no mar em frente e a padroeira deveria ser N.S.dos Remédios, para quem se levantou uma capela em 1646 e se inaugurou uma Matriz em 1783.

Diz a crônica religiosa que S.João de Matha se viu em dificuldades para reunir os fundos necessários à finalidade de sua Ordem, porque o Ocidente estava em guerra, a nobreza investindo em exércitos e a população enfrentando a escassez de recursos, a pobreza e a fome.

Foi quando ele tomou Nossa Senhora como patrona do levantamento de recursos para sua causa e os resultados foram tão impressionantes que, em pouco tempo, a Ordem dos Trinitários se tornou uma das mais ricas da Europa, trazendo de volta milhares de cristãos aprisionados no Oriente.

Em gratidão por essa ajuda, S.João de Matha homenageou a Virgem Maria com o título de Nossa Senhora do Bom Remédio ou, como ficou conhecido em Portugal, Nossa Senhora dos Remédios; sendo que remédio, nesse título, não significa medicamento, mas solução para situações difíceis.

Esse significado comparece em representações da santa, onde ela entrega a S.João de Matha uma bolsa de dinheiro e também em orações à santa que pedem ajuda em problemas, como nesta novena:

“Nossa Senhora, fonte de ajuda infalível, que sabeis do remédio para toda aflição e miséria de nossa vida, trazei conforto para os aflitos e solitários, ajudai aos pobres e desesperados, valei pelos doentes e pelos que sofrem. Ajudai-me com vossas orações e vossa intercessão para que eu encontre um remédio para meus problemas e necessidades”.