Lançamento do livro de Zezito Freire

“Paraty no Século XX” é o título de mais uma obra literária do paratiense José Carlos Freire, que completa 90 anos.

A sessão de autógrafos acontece dia 12 de maio de 2012, sábado, a partir das 17h, na sobreloja da Sorveteria Labasque, Rua do Comércio nº 100, atrás de igreja Matriz, Paraty (RJ). No livro, Zezito registra memórias sobre a história e costumes de Paraty no século passado, e ilustra com fotografias e documentos de época.

 

A memória de Paraty

por Gilberto Galvão*

Por volta de 1930, Paraty não tinha água encanada nem fossas sépticas. Pela manhã, carregadeiras a um tostão percorriam a cidade com latas de água do chafariz do Pedreira, que iam para a cozinha e o banho das casas.

O banho se tomava geralmente aos sábados, nos quartos, que não tinham janelas e eram chamados de alcovas. Depois do banho, era costume esperar um pouco para sair, porque se acreditava que os golpes de ar traziam doenças.

Nos quartos também se usavam urinóis, porque, sem água nem esgoto, as casas não tinham banheiros. E, tarde da noite, as carregadeiras a um tostão percorriam a cidade levando latas de dejetos para jogar no rio Perequê-Açu.

Quando alguém ficava doente, o médico visitava em casa e era recebido com uma bacia de louça, um jarro de água limpa e uma toalha fina pra auscultar o paciente. Os remédios eram todos manipulados, a partir de extratos, sais e tinturas.

Mas nem por isso as pessoas dispensavam a benzedeira e os chás medicinais. Em cada lugarejo do município havia alguém que conhecia as ervas locais e as usava num primeiro atendimento. Mas o médico não receitava ervas; só remédios feitos na farmácia.

De resto, durante o dia, os meninos jogavam pião e bolinha de gude na praça; soltavam papagaio sem cerol, para ver qual ia mais alto e brincavam de pegar. As moças cantavam, brincavam de roda e cada lugar da cidade tinha um grupo que jogava amarelinha.

Nas noites quentes e silenciosas, havia o namoro na praça, embaixo da janela da namorada e as serenatas, embaladas por violino, clarinete, bandolim, violão e a voz de talentos locais.

Nos fins de semana, as famílias se reuniam para jogar víspora ou davam bailes para amigos e vizinhos, animados pelo rádio, pela vitrola ou abrilhantados por músicos ao vivo. Às vezes, a dona da casa servia para as moças um licorzinho de folha de figo.

Quem pinta esse e outros retratos da Paraty antiga é o contador José Carlos de Oliveira Freire, mais conhecido como Zezito, o memorialista mais importante da cidade. Paratiense de 1922, foi provedor da Santa Casa e chefe da contabilidade da Prefeitura, abriu o primeiro escritório contábil de Paraty e,durante dez anos, escreveu suas lembranças no jornal local. Hoje, tem vários livros publicados, além de outros ainda hd do computador.

A Paraty onde Zezito passou a juventude era um pontinho esquecido da costa fluminense, que tinha vivido três séculos como próspero corredor de riquezas, mais outro como a maior produtora de cachaça do Rio de Janeiro.

Mas, no final do século 19, o trem desviou o café de seu porto, a Lei Áurea libertou os escravos de seus alambiques e Paraty entrou numa decadência profunda, da qual só sairia a partir da abertura da rodovia Rio-Santos, que se deu em 1974, segundo Zezito.

Assim, nos anos 30 Paraty estava praticamente sozinha no mundo. Para ir a Cunha, a viagem demorava um dia, subindo a serra a cavalo por um caminho lamacento. Para ir ao Rio de Janeiro, era preciso tomar bem cedo a lancha para Mangaratiba e pegar o trem, para chegar lá só á noite.

Mesmo assim, Paraty contava com um comércio forte, para atender às necessidades básicas, que se concentrava na rua da Praia, com lojas de tecidos, armarinhos, armazéns de secos e molhados, casas de ferragens e outros negócios.

Para abastecer esse comércio, a lancha trazia mercadorias do Rio de Janeiro, o navio do Lóide Brasileiro de Navegação vinha a cada quinze dias e, toda semana, tropas de mulas desciam o caminho de Cunha com milho, feijão, batata inglesa, marmelo, pêssego, pinhão, mantas de porco, galinhas e ovos.

Paraty plantava mais para o consumo das fazendas, que forneciam o leite para a cidade e ainda havia engenhos de cachaça que vendiam para o Rio de Janeiro, mas, com a decadência da produção, as fazendas passaram a plantar banana, que ia para Cunha e o vale do Paraíba.

Havia, também, a pesca de cerco, artesanal. Produzia-se peixe seco, que também subia com as tropas e o cação eviscerado, prensado e desidratado, o chamado bacalhau de pobre, que tinha um bom mercado no Rio de Janeiro.

Nessa época, Zezito dava duro entre a Santa Casa e a Prefeitura e ainda arranjava tempo para jogar vôlei e basquete, para dançar a ciranda na roça e tocar clarinete na banda Lira da Juventude, que se apresentava em procissões, retretas e casamentos.

Esse quadro só mudou significativamente a partir de 1954, quando empresários do vale do Paraíba lotearam o bairro da Jabaquara para a construção casas de veraneio e paulistas endinheirados começaram a comprar imóveis no Centro Histórico. Com isso, o piso da Paraty-Cunha foi melhorado e a cidade ganhou um ônibus diário para Guaratinguetá.

No entanto, Paraty continuou sendo um canto escondido no litoral fluminense, freqüentado apenas por artistas, intelectuais e descolados. Entre os anos 60 e 70, vários filmes brasileiros foram rodados na cidade, aproveitando suas belezas e seu cenário colonial. E a vida local continuou na pouco alterada quietude do século 19.

Até que, por volta de 1968, chegou a TV com toda a força e, aos poucos, a vida da cidade foi sendo comandada pelas atrações da telinha. O cinema local, que já tinha pouco público, acabou fechando. Foi o fim, também, dos bailes caseiros e o jogo de víspora. O namoro na praça continuou, mas a namorada não saía mais na janela, porque ficava vendo a novela na TV. Por isso, não se fizeram mais as serenatas de antes.

Em 1973, Zezito deixou a Prefeitura, continuou trabalhando em seu escritório de contabilidade e só deixou as calculadoras de lado por problemas de saúde, no início dos anos 90. Foi quando começou a rascunhar suas lembranças da cidade e das mudanças rápidas que ela sofreu, depois de um século de sono.

Segundo ele, Paraty não tinha água, esgoto, hospital de qualidade nem escola avançada. Mas não tinha ricos muito ricos, nem pobres muito pobres. Havia muita festa, porque a igreja católica comemorava todos os santos. Havia dança, futebol e festa junina nas fazendas de cachaça que ainda restavam. Mas, com a Rio-Santos, a cidade sofreu uma grande transformação.

“Quem procurava a tranquilidade em Paraty já foi embora. De lá para cá, vieram os tóxicos, os pedintes, os camelôs. Hoje, há muito emprego em pousada, em restaurante, mas é emprego de salário mínimo e gorjeta. E continuamos não tendo esgoto, hospital de qualidade nem escola avançada. As pessoas dizem que eu sou nostálgico, mas não sei se isso é progresso”.

Acesse o Blog de Zezito Freire.

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*Gilberto Galvão é criador da revista virtual pARATIANDo , dedicada ao patrimônio cultural da cidade.

A revista pARATIANDo é editada pela Associação Viva Paraty, entidade sem fins lucrativos destinada à preservação e à difusão desse patrimônio, com o apoio institucional da UFRJ, em convênio com o Cembra e em rede com o Portal Paraty.com, o jornal Folha do Litoral e a rádio Nova Onda FM.

 

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