Conde Frederic: o arquiteto que enxergou o futuro de Paraty.

Em Junho de 2004, o portal Paraty.com publicou uma entrevista com Conde Frederic, arquiteto responsável pelo primeiro Plano Diretor de Paraty. Ele falou como conheceu Paraty e como vê seu crescimento hoje.

 Frederic de Limburg Stirum – Conde belga – nasceu na Bélgica em 1931 e se diplomou como arquiteto em Paris, na École Speciale d׳ Architecture. Assim que acabou os estudos veio para o Brasil em outubro de 1961, mas, sem saber ao certo o que queria fazer. Adorava Portugal, Brasil, então veio para conhecer tudo. O amigo D. João de Orleans e Bragança o recepcionou na chegada. Conheceu Paraty através de outro amigo, e se apaixonou. Sentiu que, se algo não fosse feito, em pouco tempo o progresso avançaria, inclemente, sobre os arredores da antiga cidade.

No Rio de Janeiro conheceu o pintor Frank Shaeffer, antigo frequentador de Paraty, com quem travou uma amizade. Através dele, conheceu Dr. Rodrigo de Mello Franco de Andrade, diretor do DPHAN (Diretoria do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional). Foi aí que conseguiu canalizar seu desejo de iniciar um plano de proteção e desenvolvimento para a cidade histórica, nos moldes de outras velhas cidades do mundo, igualmente importantes para a memória da humanidade. O objetivo encontrou o interesse do DPHAN em viabilizar um plano urbanístico de preservação do acervo arquitetônico e natural do sítio histórico, que culminou na conversão do município em monumento histórico nacional, decretado pelo então Presidente da República, Castello Branco, em 24 de março de 1966.

O plano do Conde Frederic tinha como critério conjugar a paisagem natural do entorno do bairro histórico com o crescimento de uma nova cidade. Esta medida, segundo o Conde, garantiria ao viajante, vindo pelo mar, encontrar a cidade como que flutuando sobre as águas, destacando-se do fundo natural de montanhas. “…Jamais arranha-céus ou chaminés de usinas venham a estragar esta excepcional perspectiva”, declarava o arquiteto à Revista Arquitetura, numa edição especial sobre Paraty, em 1966.

No início dos anos 70, Conde Frederic ingressou no grupo designado pelo governo federal, a Companhia Nacional de Planejamento Integrado (CNPI) e foi encarregado de desenvolver o plano diretor da zona de expansão da cidade histórica, mas acabou impossibilitado de acompanhar sua conclusão. Ficou alguns anos fora do Brasil e quando retornou, o projeto havia sido substituído por outro. O resultado disso foi que Paraty cresceu totalmente desordenada.

Mesmo assim, o projeto de Conde Frederic é, em muitos pontos, premissa obrigatória da defesa e proteção de Paraty, seguido à risca pelos responsáveis pela preservação no âmbito federal (Iphan, antigo Dphan).

Atualmente, Conde Frederic vive na Europa, mas ainda visita a cidade com certa freqüência. Na entrevista, ele falou sobre sua paixão por Paraty, explicou o que mencionou em seu relatório para a Unesco sobre a cidade, e de como é possível adequar a nova cidade sobre a velha.

Lia Capovilla: Como conheceu Paraty?

Conde Frederic: Eu tinha um amigo, Mario Barboza Carneiro, que ainda vive em Paris. Ele tinha um aviãozinho. Aí me disse: “Olha aqui, você tem que conhecer Paraty. Vou te levar de avião”. Então viajamos num pequeno avião com dois lugares e chegamos até aqui. Na primeira vez que vim a Paraty não tinha nenhuma opinião, não achava nada de especial, porque na verdade não conhecia ainda a arquitetura colonial. Então, voltei para o Rio sem nenhuma impressão especial.

Lia Capovilla: O que foi que fez com que o senhor desenvolvesse paixão intensa por esta cidade?

Conde Frederic: Na segunda vez, voltei para cá de carro com um amigo, pela estrada Cunha – Paraty e, de repente, descobri Paraty. Achei uma coisa extraordinária essa floresta, foi quando eu vi essa cidade, sobretudo quando eu soube que a BR 101 ia chegar aqui e que, de repente, haveria uma verdadeira explosão demográfica e urbanística. Então pensei que era preciso fazer alguma coisa.

Lia Capovilla: Foi aí que o senhor teve a iniciativa de fazer um planejamento da cidade?

Conde Frederic: Sim, porque quando vejo uma coisa bonita que pode se estragar, a minha idéia primeira é de salvá-la, protegê-la. Quando eu vejo, no Rio de Janeiro, que uma casa antiga está caindo, eu sofro, eu acho uma pena, em Bruxelas, também, em Paris, também.

Lia Capovilla: Aí o senhor fez um relatório?

Conde Frederic: Eu fiz um primeiro relatório mostrando o que tinha sido feito nas cidades de Fez, Meknés e Marrakech, no Marrocos, uma nova cidade ao lado da antiga. Depois eu fiz um outro com muitas imagens mostrando o que se poderia fazer aqui em Paraty e esse relatório foi entregue ao Dr. Rodrigo, diretor do Departamento do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional na época, através de Frank Shaeffer, meu amigo pintor. A idéia era também de se fazer uma nova cidade ao lado da antiga.

Lia Capovilla: Foi Frank Shaeffer que o apresentou ao Dr. Rodrigo?

Conde Frederic: Frank Shaeffer me apresentou a um membro do Conselho do Dphan, o arquiteto Paulo Santos, que me apresentou a Rodrigo de Melo Franco de Andrade. Grande figura era o Rodrigo. Ele morreu, infelizmente, antes do projeto final estar pronto. Sempre fui muito bem recebido no escritório do Dr. Rodrigo, ainda tenho cartas dele que, para mim, são valiosíssimas… A Unesco veio para cá e se interessou muito por Paraty. Já que eu estava no Rio e não era funcionário do Patrimônio Histórico, arranjou-se para que a Unesco me encomendasse oficialmente um relatório sobre Paraty. Eu fiz esse relatório antes do projeto ser elaborado. Foi durante a época entre o decreto e o início do projeto.

Lia Capovilla: E qual era a principal informação deste relatório?

Conde Frederic: Para mim, o mais importante em Paraty é a floresta. Sem a floresta, Paraty se destrói. No relatório eu falava muito da floresta. Quando voltei para o Brasil, Dr. Rodrigo me perguntou o que eles haviam dito em Paris, na sede da Unesco, onde apresentei o trabalho. O comentário que recebi foi de que falei demais da floresta. “Fez bem”, disse ele. Esta foi a única resposta do Dr. Rodrigo. Você vê a visão desse homem? Um homem fantástico.

Lia Capovilla: E Como foi conduzido o projeto?

Conde Frederic: Dr. Rodrigo achou que o melhor era fazer um projeto de âmbito federal pelo tombamento de todo o município de Paraty, o que foi feito com a assinatura do Presidente Castello Branco, logo depois da revolução, em 1966. Foi assim que Paraty se tornou Monumento Nacional. Esse decreto foi assinado por vários Ministros. Através deste, era possível criar uma Comissão de Trabalho. Um tempo depois, o Dr. Rodrigo morreu, infelizmente. Depois de um ano e meio, mais ou menos, criou-se uma sociedade de nome Companhia Nacional de Planejamento Integrado, CNPI, designada pelo Ministério da Educação para fazer o Plano de Desenvolvimento Integrado e Proteção do bairro histórico. Na verdade, havia dois grupos, um que trabalhava no planejamento de toda a costa e outro grupo que trabalhava na nova cidade, e eu chefiava esse grupo.

Lia Capovilla: Até onde foi o trabalho?

Conde Frederic: Quando ficou pronto, foi aprovado na esfera municipal, mas aí, fui embora para a Europa. Quando voltei, o projeto estava sendo detalhado e quando vi o resultado, ele estava totalmente diferente, não era mais o projeto inicial.

Lia Capovilla: Quais eram as diferenças?

Conde Frederic: A pior delas foi a abertura da rua ao lado do bairro histórico, de frente para o mar, a Rua Fresca. Quer dizer que, de repente, todos os carros e caminhões passaram a circular pela frente das casas do lado do mar, como está até hoje. Isso prejudicou muito o bairro histórico porque fechou o livre acesso das marés às ruas, uma das características de Paraty, e, ainda, perdeu-se o sossego e a beleza da vista para o mar. O novo projeto divide a zona de expansão em várias zonas, zonas um, dois, três, com divisas mais altas, menos altas, mas nenhum planejamento de rua foi feito. O primeiro projeto meu foi totalmente engavetado.

Lia Capovilla: O senhor costumava freqüentar algum lugar interessante na cidade?

Conde Frederic: Tinha amigos por aqui. Conheci José Kleber, que era o representante do Patrimônio em Paraty, que sempre me deu um apoio total. Sei que o Dr. Rodrigo gostava muito dele, muito mesmo.

Lia Capovilla: O senhor começou a vir sempre? Com que freqüência?

Conde Frederic: Muitas vezes. Eu vinha de 15 em 15 dias, todos os meses, de carro, de lancha, de todos os meios.

Lia Capovilla: Assim como tinha um grande apoiador, que era o Dr. Rodrigo, o projeto tinha algum opositor forte também?

Conde Frederic: Isso é muito delicado para responder, posso lhe dizer que aqueles opositores fortes que eu tinha, a maioria já morreu. Aqueles que sustentaram o meu projeto ainda estão lá, inclusive, o nosso prefeito de hoje, José Cláudio, que, na época, era um jovem chefe de gabinete. Agora é um prefeito que conhece o projeto desde jovem e gosta tanto dele que está tentando fazer ainda o que se pode.

Lia Capovilla: Quando o senhor comprou a primeira propriedade?

Conde Frederic: Eu só comprei depois que o decreto do tombamento de Paraty a Monumento Nacional saiu. Não comprei nada antes. Eu comprei depois, quando todo o mundo podia comprar, para demonstrar que eu tinha confiança em Paraty. Eu tive um sobrado perto da Igreja Santa Rita, depois vendi e comprei uma casa, a casa que era da Djanira, na rua principal… também fui amigo dela. Depois comprei outra casa ao lado da Igreja Matriz, ao lado dessa quadra de basquete. Aí eu morava, e depois do projeto feito, vendi.

Lia Capovilla: Porque foi embora?

Conde Frederic: Eu estava recém casado, e quando o projeto ficou pronto eu fui embora para a Europa, infelizmente, porque sinto que se tivesse ficado, lhe garanto que o projeto teria saído.

Lia Capovilla: O senhor foi embora porque casou?

Conde Frederic: Sim, estava casado e minha vida era lá também, afinal de contas, minha esposa é francesa…

Lia Capovilla: Como o senhor vê a cidade hoje?

Conde Frederic: Olha, o bairro histórico está muito bem cuidado, muito limpo, com muitos turistas, o que é agradável, porque dá vida. O resto da cidade se desenvolve muito, mas sem planejamento nenhum. E se vê que a cidade cresce muito, tem lojas por todos os lados, lojas de construções, fotógrafos que revelam em uma hora, serviços que só se vêem nas cidades grandes. Paraty se desenvolve de uma maneira fantástica.

Lia Capovilla: Uma das idéias contidas no seu projeto era a abertura de lagoas de decantação. Como o senhor chegou nesta idéia?

Conde Frederic: Essa idéia veio muito depois, na hora de fazer o projeto definitivo, pensei numa solução para que a baía não se enchesse novamente de lodo. Aí eu conheci uma firma que fazia lagos com jatos fortes de água que cavavam o chão, quer dizer que eram muito bem feitos, sem ferir o solo no fundo, e por outro lado havia uma bomba que tirava água com lodo e depois jogava fora e o lago estava feito. Muito fácil. E quando o rio passa por um lago assim, a água descansa, a sujeira fica no fundo e a água sai limpa na baía. Quer dizer que nesse momento era para se limpar a baía.

Lia Capovilla: E o senhor achava que esse modelo se adequaria à situação de Paraty?

Conde Frederic: É o ideal, isto tem que ser feito.

Lia Capovilla: Então o senhor acha também que a pior coisa que aconteceu com Paraty foi a retificação dos rios?

Conde Frederic: Foi, porque agora o rio vai com tanta velocidade que arranca tudo e a sujeira vai toda para a baía. Eu me lembro uma vez, em 67, por aí, que choveu muito. Eu fui até o Morro do Forte para ver, e toda a baía estava de cor amarela, cheia de troncos e raizes que a água do rio tinha trazido até o mar. Imagine toda essa lama no fundo do mar. Evidentemente, num mar raso, somem os peixes.

Lia Capovilla: O senhor vê alguma aberração que pode complicar o destino da cidade hoje, algum problema crônico?

Conde Frederic: O pior que eu vejo é a entrada principal da cidade, que atravessa um bairro não muito bonito. Acho que o turista que chega no bairro histórico atravessando a cidade nova, nos dias de hoje, não tem nada de bonito para ver. Havia sugerido, no projeto, a implantação imediata de vias para circulação de automóveis alcançando já os novos bairros. A atual entrada, que era de terra, seria destinada a permanecer assim, para permitir o acesso direto de pedestres, bicicletas e cavalos para a cidade, sem o perigo de serem atropelados pelos caminhões.

Lia Capovilla: E quanto ao esgoto, houve algum estudo para resolver esse problema e evitar que a água suja das pousadas, restaurantes e residências fosse jogada nos rios?

Conde Frederic: No projeto que foi feito em 72, estava prevista uma solução para os esgotos, mas infelizmente nada foi feito. Em cima do projeto que eu fiz, havia um engenheiro de saneamento que projetou uma solução que funcionaria muito bem. Mas, infelizmente, nada foi feito e, inclusive, no fundo do Jabaquara, ele tinha desenhado um lago de oxidação que era justamente para esses esgotos. Havia uma solução perfeita.

Lia Capovilla: A cidade está crescendo e estão surgindo vários loteamentos. Cada loteador tem uma idéia pessoal de como deve repartir o seu pedaço. O senhor chegou a conhecer, nesta visita, alguns projetos recentes para a cidade?

Conde Frederic: Cada loteador pensa exclusivamente em seu projeto e não leva em conta a idéia de conjunto integrado à cidade. Aqui falta muito pensar em conjunto, no todo da cidade. Não se guarda terreno para o que poderá a ser futuramente uma nova sede de administração municipal, uma nova igreja, uma nova escola, um novo cemitério. A cidade cresce assim, cada um puxando para o seu lado, então, quando precisa um terreno para fazer um prédio institucional, não há mais terreno.

Lia Capovilla: O senhor tem algum projeto atualmente ligado à cidade?

Conde Frederic: Atualmente não.

Lia Capovilla: Onde o senhor vive hoje?

Conde Frederic: Vivo entre Bélgica e França com minha esposa e minhas filhas, três filhas moram: uma na Inglaterra, outra na Espanha, outra na França, mas elas conhecem Paraty. A caçula veio aqui no ano passado, gostou muito e as outras vinham aqui quando tinham oito, nove anos, por aí.

Lia Capovilla: O senhor ficou com algum ressentimento de Paraty?

Conde Frederic: Eu adoro Paraty, estou com muita saudade, aliás, eu venho aqui sempre para matar essa saudade, mas quando vejo que a cidade está crescendo assim, desse modo tão desordenado, me faz muito mal. Paraty é uma cidade colonial. Se o Projeto fosse tivesse implantado, havia lugar para fazer uma nova rodoviária, prefeitura, escolas, poderia se chamar grandes arquitetos do Rio para, cada um, criar um edifício institucional e Paraty teria sido: de um lado, um centro da arquitetura colonial; e do outro, um centro da arquitetura mais moderna do Brasil. Um conjunto único no Brasil que, nesta condição, poderia ter sido indicada à título de Patrimônio Mundial pela Unesco.

Lia Capovilla: A localização privilegiada de Paraty, perto de uma baía tranqüila, deveria estimular muito mais o mercado náutico do que estimula. Como o senhor vê esse mercado no futuro?

Conde Frederic: Não esqueça que Paraty é um porto, foi antigamente um porto e tem que virar novamente um porto. Aliás, no projeto estava previsto um porto junto à Ilha das Cobras. Essa idéia foi combatida na época por algumas pessoas não sei por quê, mas a necessidade ultrapassa tudo e agora estão surgindo novas marinas. Em breve o porto de pescadores vai sair novamente, tem de sair, a cidade cresce.

Lia Capovilla: O conceito adotado pelo Instituto do Patrimônio Histórico no Brasil é o mesmo adotado pelos órgãos similares dos outros paises?

Conde Frederic: É mais ou menos o mesmo. Tem cidades na Europa totalmente preservadas, mas dentro das cidades é possível fazer construções modernas, desde que se harmonizem com o conjunto. No caso de Bruges, Bélgica, as casas são baixas, evidentemente não se pode fazer torres de dez andares. Mas pode se fazer uma casa nova, até moderna, que não seja uma cópia de uma casa antiga, mas que se harmonize com o conjunto. Em Paraty, quando se tem um terreno baldio, ao meu ver, é possível fazer uma casa nova, até moderna, desde que, não seja uma falsificação da antiga, desde que, se harmonize com o conjunto.

Lia Capovilla: Quais projetos o senhor tem em seu currículo?

Conde Frederic: Na Europa, fui responsável por um loteamento, algumas casas, não muitas, confesso, e fiz a restauração de um castelo antigo na Bélgica.

Lia Capovilla: Se tivesse que escolher uma cidade para viver até o final de sua vida, qual seria?

Conde Frederic: Paraty, claro. Infelizmente é difícil, porque tenho toda a minha família lá na Europa, mas adoro Paraty, a gente, o modo de viver, totalmente diferente de viver da Europa.

Lia Capovilla: E o senhor se adapta bem?

Conde Frederic: Acredito que sim…gosto muito daqui, francamente.